Teoria da Consciência de Eva v3.0
Como os seres humanos desenvolveram uma alma

Publicado originalmente por Vectors of Mind.

“Quando a mulher viu que o fruto da árvore era bom para comer e agradável aos olhos, e também desejável para adquirir sabedoria, tomou dele e comeu. Deu também um pouco ao marido, que estava com ela, e ele comeu. Então os olhos de ambos se abriram, e perceberam que estavam nus; por isso, costuraram folhas de figueira e fizeram coberturas para si.” Gênesis 3:6-7
Segundo algumas estimativas, o Homo sapiens evoluiu há 200.000 anos. No entanto, há poucas evidências de comportamento sapiente durante a maior parte desse período. As ferramentas de pedra permaneceram as mesmas por dezenas de milhares de anos, o que significa que inúmeras gerações nasceram e morreram sem qualquer inovação. Não havia arte e, provavelmente, nem narrativas. Há cerca de 50.000 anos, surgiu uma cultura distintamente humana. As ferramentas tornaram-se mais complexas. Os estilos e métodos de produção mudaram ao longo de centenas de anos, e não de dezenas de milhares. A arte, a religião e os calendários foram inventados. A partir de então, a mudança passou a ser a única constante. Muitos cientistas acreditam que a linguagem evoluiu por volta dessa época. Parece ser o alvorecer da vida interior.
Grande parte da discordância sobre quando nos tornamos humanos é, na verdade, uma discordância sobre o que nos torna humanos. Ironicamente, uma de nossas peculiaridades mais claras é a necessidade de narrativas, especialmente sobre quem somos e de onde viemos. Todas as culturas respondem a essas perguntas. O escândalo da evolução darwiniana foi contrariar a religião ao explicá-las por meio de causas materiais — a seleção natural grau a grau. Em vez de ser criado à imagem de Deus, o homem e a besta passaram, daí em diante, a pertencer à mesma árvore genealógica. Sem dúvida, compartilhamos um ancestral comum com os outros animais. Mas isso elide a questão mais profunda do que nos torna humanos. Podemos compartilhar 99% de nosso DNA com chimpanzés, mas, no que diz respeito às características significativas, os humanos são categoricamente diferentes. Temos linguagem e pensamento simbólico. Somos dualistas natos, que sentimos que, em nosso âmago, somos feitos de substância espiritual. Um cão jamais teve uma crise existencial1. Mais do que únicas, essas características parecem ser binárias; um organismo ou as possui ou não as possui. Como evoluímos essas características definidoras pouco a pouco? Houve épocas em que os humanos eram apenas parcialmente capazes de pensamento simbólico? Como isso sequer se pareceria? Esta é uma das grandes questões em aberto da ciência.
A tensão entre a modernidade anatômica de 200 kya (mil anos atrás) e a Modernidade Comportamental de 50 kya permeia o estudo das origens humanas. Veja, por exemplo, The Recursive Mind: The Origins of Human Language, Thought, and Civilization, de Michael Corballis. Ele defende que o pensamento recursivo sustenta a autoconsciência, a linguagem, a contagem e a imaginação do futuro. Todo o pacote humano firmemente atado por um único princípio. Mas a cronologia é confusa. Ele está “certo” de que um Homo sapiens de 200 kya, se criado nos dias de hoje, poderia tornar-se advogado, artista ou cientista sem qualquer problema. Afirma que não há diferenças cognitivas nessas escalas temporais, mas depois dedica vários parágrafos a detalhar como, a partir de 40 kya, ocorreu um florescimento cultural que certamente parece a emergência da recursividade — e talvez ela tenha evoluído então. De algumas maneiras, trata-se de uma ideologia otimista. “Sim, não há sinais de sapiência entre 200 e 40 kya, mas, se um Homo sapiens primitivo fosse criado no sistema escolar moderno, seria completamente normal. A evolução não pode afetar o cérebro em meros 200.000 anos.” Mas o outro lado dessa moeda menospreza a centelha humana. Isso implica que, na Idade da Pedra, coisas que consideramos fundamentais simplesmente não se desenvolveram. O impulso de fazer arte e buscar significado nem sempre esteve presente em nossa espécie. Em vez disso, é um tique dos ambientes em que os humanos viveram nos últimos 50.000 anos. Se todos os demais parassem de fazer perguntas existenciais — ou até de rabiscar — você também pararia. Ou, pelo menos, uma criança pararia, se fosse criada nesse mundo estéril. Não é apenas uma visão sombria da natureza humana; se a linguagem tivesse evoluído por volta de 200 kya, então compreender esse momento seria impossível. O tempo devora as evidências. No entanto, se ela começou a emergir há 50 kya, talvez possamos reconstruir a história. Os retoques finais do pensamento linguístico podem ter evoluído em um passado relativamente recente.
Escolho enquadrar as origens humanas em termos de uma alma. O subtítulo deste ensaio poderia ser “Como os humanos evoluíram um ‘eu’ autorreferencial irredutível”, mas isso divorciaria meu projeto de milhares de anos de pensadores e do poder fundamentador da linguagem natural. O significado de “alma” é um acordo entre milhões de pessoas sobre a essência de um eu, a sede da agência e a conexão com o divino. Ao lidar com o que significa ser humano, a linguagem comum oferece um guarda-corpo.2 E, neste caso, um alvo para aquilo que deve ser explicado. De onde vieram as almas?
Dado isso e a referência a Eva, devo esclarecer a relação com o cristianismo. Penso que Gênesis e muitos outros mitos de criação são relatos fenomenológicos extraordinariamente bons do primeiro homem a pensar: “Eu sou”. Com base nos dados arqueológicos e genéticos, isso pode ter acontecido há cerca de 50 kya. Os mitólogos comparativos nos dizem que algumas histórias perduraram por tanto tempo e, se alguma história seria preservada por milênios, seria a de nossa gênese.
Minha tese é que as mulheres descobriram o “eu” primeiro e depois ensinaram os homens sobre a vida interior. Os mitos de criação são memórias da época em que as mulheres forjaram os humanos como uma espécie dualista. Isso parece fantástico, mas tivemos de evoluir em algum momento (e isso deve ter sido fantástico). Além disso, versões mais fracas da ideia continuam sendo interessantes. Por exemplo, sustento que o veneno de serpente foi usado nos primeiros rituais para ajudar a comunicar “eu sou”. Daí a serpente no jardim, tentando Eva com o autoconhecimento. Mesmo que esses rituais não tenham figurado na evolução humana nem em nossa descoberta da consciência, seria extraordinário se um culto psicodélico da serpente do Paleolítico fosse lembrado em Gênesis e também pelos astecas. Eu assistiria a essa série da Netflix!
Em várias publicações de blog, desenvolvi como seria descobrir o “eu”, como isso poderia ter sido comunicado a outras pessoas, por que as mulheres teriam estado na vanguarda, como isso poderia evoluir por graus e que tipo de marcas culturais e genéticas tal processo deixaria. Mas esses argumentos estão espalhados por diferentes publicações e, nesse ínterim, encontrei mais evidências em seu apoio. Por exemplo, anteriormente, cogitei que o veneno de serpente poderia ter sido usado como alucinógeno. Acontece que isso é bem documentado em contextos rituais, inclusive entre os arquitetos da civilização ocidental.
Este ensaio começa com uma discussão sobre o que significa ser humano. Isso é essencial para estabelecer um quadro comum, mas, infelizmente, enterra o ponto principal. A pesquisa mais original diz respeito ao Culto da Serpente mundial. Se você estiver sem tempo, poderia começar por essa parte. Ou, se preferir áudio, há uma narração disponível por Askwho Casts AI. (E, se gostar, considere pagar-lhes um café no Patreon.)
Eve Theory of Consciousness v3.0 - By Andrew Cutler
Askwho Casts AI
Narração integral por IA, com múltiplas vozes, do ensaio Teoria de Eva da Consciência v3.0 — De Andrew Cutler. Este é o ensaio mais longo que narrei por IA; se você gosta desses projetos, considere apoiar sua produção contribuindo para meu Patreon: https://www.patreon.com/AskwhoCastsAI
Uma última questão. Os racionalistas costumam começar um ensaio sinalizando quão seriamente se deve considerar o argumento. Status epistêmico: As origens humanas são inerentemente especulativas, e este é um projeto movido pela paixão, fora de minha área de especialização (psicologia e IA). Para esta publicação, li talvez uma dúzia de livros e 100 artigos. Uma maneira de pensar sobre esta teoria é interpretar os dados perguntando: “Há quanto tempo os humanos poderiam ter se tornado sapientes?”, em vez de usar o viés institucional que busca empurrar essa data o mais para trás possível3. Portanto, prossiga com cautela, mas isso é o esperado neste assunto.
Sumário #
- O que nos torna humanos? Autoconsciência recursiva.
- EToC fraca, sem qualquer referência à mitologia. A cultura recursiva se espalhou, e isso provocou uma seleção genética de capacidades recursivas onde quer que tenha chegado.
- O Culto da Serpente da Consciência: dando presas à Teoria do Macaco Chapado.
- As mulheres descobriram o “eu” e fundaram o Culto da Serpente.
O que nos torna humanos? #

“No princípio, havia apenas o Grande Si sob a forma de uma Pessoa. Refletindo, nada encontrou além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Este sou eu!”; daí surgiu o nome “eu” (Aham).” Brihadaranyaka Upanishad 1.4.1
“Eu” é o início de muitos mitos da criação. Isso é explicitado no verso hindu citado acima. Ou considere-se o relato egípcio, no qual Atum emerge do oceano primordial do caos ao pronunciar seu nome. Também há ecos disso na Bíblia. Depois de comerem o Fruto do Conhecimento, Adão e Eva tornaram-se autoconscientes — conscientes de si mesmos, até — e perceberam sua nudez. A capacidade de refletir sobre si mesmo produziu então a alienação. Adão já não podia viver em unidade com Deus e a natureza. Teve de deixar o Jardim.
O Novo Testamento pode ser lido como um desenvolvimento dessa ideia. João inicia seu evangelho com um aceno ao Gênesis: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” O Verbo aqui se refere a Cristo, a resposta à alienação produzida pela Queda de Adão e Eva. Jesus iniciou seu ministério afirmando ser o grande “Eu Sou”, um dos nomes judaicos de Deus (João 8:56–59). É uma passagem que passa despercebida para muitos leitores de língua inglesa, mas não para seu público judeu, que imediatamente pegou pedras para matá-lo. Eles entenderam a afirmação como sendo: “Eu sou Deus, o Ser Existente por Si Mesmo, que apareceu a Abraão, Isaque e Jacó”. Espero que não seja um abuso da propriedade transitiva dizer: “No princípio era o Eu Sou.”
Esses mitos ensinam que a vida começou com “eu”, que Deus é, em última instância, autorreferencial e que essa mesma centelha divina existe dentro do homem. Para além do “eu”, os mitos da criação também citam o ritual, a linguagem e a tecnologia como aquilo que separa o homem do animal.
Na Austrália, a lenda aborígene sustenta que espíritos civilizadores trouxeram aos primeiros povos a linguagem, o ritual e a tecnologia. Assim, terminou o Tempo do Sonho e começou o tempo. De modo semelhante, os astecas ensinam que, antes dos seres humanos modernos, vivia uma raça de homens feita de madeira, desprovida de alma, fala, calendários e religião. Um grande dilúvio exterminou essa raça penúltima, e a humanidade só sobreviveu ao transformar-se temporariamente em peixe. É evidente que esses mitos não podem ser tomados literalmente. Contudo, seu núcleo resistiu extraordinariamente bem. Quando os cientistas respondem ao que torna os seres humanos únicos, apontam para a autoconsciência, a linguagem, a religião e nossa relação com o tempo e a tecnologia. Muitos chegam a supor que tudo isso constitui um conjunto estreitamente integrado, que pode ser explicado pelo pensamento “recursivo”. Segue-se que, na realidade, todo o conjunto teria evoluído mais ou menos de uma só vez.
O fato de os mitos da criação serem fenomenologicamente precisos não precisa de explicação. A paisagem narrativa é competitiva, e apenas o que é psicologicamente verdadeiro sobrevive, particularmente no espaço congestionado da cosmogonia. Contudo, detalhes dos mitos da criação do mundo sugerem que eles compartilham uma raiz comum, profundamente situada no passado. Na verdade, parecem remontar aproximadamente à época em que os seres humanos começaram a expressar comportamentos “recursivos”. Isso abre a possibilidade de que não sejam precisos por acidente ou apesar de si mesmos. Poderiam ser memórias da transição para a sapiência.
A recursão é útil #
A seleção natural funciona porque os traços são transmitidos dos pais aos filhos. Se um traço permite que um progenitor tenha mais filhos, então esse traço se tornará mais comum na população. Assim, se a capacidade de digerir leite de vaca ou de pensar pensamentos abstratos for útil, esses traços se tornarão mais prevalentes a cada geração. Dado isso, que capacidades o pensamento recursivo possibilita?
A recursão é um processo no qual uma função ou procedimento chama a si mesmo, direta ou indiretamente. Em outras palavras, é um método no qual a solução de um problema depende das soluções de instâncias menores do mesmo problema. Isso pode ser tão simples quanto ficar entre dois espelhos e observar o reflexo do reflexo do seu reflexo. O último reflexo depende daqueles que vieram antes dele. O conceito é amplamente utilizado na ciência da computação e na matemática para resolver problemas complexos, decompondo-os em partes mais simples e mais manejáveis.
Na ciência da computação, uma função recursiva aplica-se à sua própria saída. Frequentemente, cada aplicação sucessiva será uma sub-rotina, na qual a entrada se torna progressivamente mais simples até atingir alguma condição de parada. Se isso for técnico demais, não se preocupe. Basta saber que, em termos algorítmicos, a recursão é um superpoder. Considere o fractal abaixo. A maneira mais direta de armazenar a imagem é enumerar a cor de cada pixel. Mas há muitos pixels e, como a maioria das imagens possui estrutura, elas podem ser armazenadas de maneira muito mais eficiente com alguns truques. Nos bastidores, o JPEG usa recursão para comprimir imagens, sem a qual o algoritmo seria ordens de grandeza mais lento.4

Pode-se avançar um passo a mais no caso dessa imagem, pois ela é gerada por um processo recursivo. Portanto, a imagem pode ser codificada sem perdas com os poucos bytes necessários para escrever o programa recursivo que originalmente a produziu — algumas linhas de código. Além disso, seria possível ampliar qualquer borda e ver o fractal recapitular a si mesmo indefinidamente, em escalas cada vez mais minuciosas. A recursão é quase alquímica ao produzir tanto a partir de tão pouco. Nas palavras do lendário cientista da computação Niklaus Wirth:
O poder da recursão reside evidentemente na possibilidade de definir um conjunto infinito de objetos por meio de uma afirmação finita. Da mesma maneira, um número infinito de computações pode ser descrito por um programa recursivo finito, mesmo que esse programa não contenha repetições explícitas.
Mas os seres humanos não são computadores. Como o cérebro utiliza a recursão? Na década de 1950, o linguista Noam Chomsky afastou-se dos behavioristas da tábula rasa ao postular que uma Gramática Universal restringia todas as línguas. Isto é, os seres humanos têm um instinto para a linguagem. Assim como as aranhas tecem teias de determinado desenho, o aparato cognitivo humano vem preparado para aprender um tipo específico de gramática. Não se trata de gramática no sentido de como conjugar verbos, o que varia de uma língua para outra. Em vez disso, a Gramática Universal é uma metarregra que se aplica a todas as línguas em razão do projeto do cérebro. Em seu artigo de 2002, “The Faculty of Language: What Is It, Who Has It, and How Did It Evolve?”, coautorado com Marc Hauser e Tecumseh Fitch, Chomsky argumentou que a recursão era a característica fundamental da faculdade humana da linguagem. Toda língua utiliza a recursão como base de sua gramática.
Como em outros domínios, a recursão linguística significa que as frases podem ser analisadas por meio de sub-rotinas autorreferenciais. Por exemplo, a frase “Watson escreveu que Holmes deduziu que o corpo estava no galpão” pode ser dividida em três partes:
X1 = Watson escreveu
X2 = Holmes deduziu
X3 = o corpo estava no galpão
O que Watson escreveu? Para saber, é preciso primeiro analisar X2, que, por sua vez, exige a análise de X3. Há uma hierarquia recursiva. O significado da frase muda completamente a cada oração adicional, e isso pode prosseguir indefinidamente. Podemos antepor Jane disse que John disse que Harold disse que… a X1 + X2 + X3 para sempre. Embora exista um conjunto finito de palavras, não há uma frase gramatical mais longa. A recursão extrai o infinito de blocos de construção finitos. Não que saiamos por aí proferindo frases infinitamente longas. Mas, na prática, ela aumenta enormemente a complexidade das ideias que podem ser expressas. A Gramática Universal se baseia na mesma regra que os fractais.
Leitores perspicazes talvez estejam se perguntando se há uma possível isca e troca. O fato de usarmos recursão para descrever todas essas coisas não significa que elas sejam iguais. E isso é justo. Provavelmente há algumas diferenças. Mas é inteiramente comum, na corrente principal, agrupar muitos tipos de recursão. É uma área ativa de pesquisa testar em que medida a recursão no processamento da música, da linguagem, da visão ou do planejamento motor utiliza a mesma arquitetura neural.5 Ou considere o trabalho do psicólogo e linguista Michael Corballis. Junto com a linguagem, ele acrescenta vários outros superpoderes recursivos em seu livro The Recursive Mind: The Origins of Human Language, Thought, and Civilization. Entre eles estão a capacidade de introspecionar, contar e pensar sobre o futuro. Como esse futuro é imaginado, isso também implica a capacidade de criar ficção, mundos que não existem. Esse é o início da arte, da vida espiritual e da condição humana.
Portanto, a recursão é útil. Com ela, os seres humanos se tornaram seres dependentes da cultura, dotados de um instinto linguístico. Mas, o que é mais importante para os indivíduos, a recursão é a base da consciência. Esse duplo propósito (perdoem o trocadilho) é importante de lembrar, embora a consciência e a aptidão evolutiva sejam frequentemente tratadas separadamente.
A recursão é essencial para a consciência #

A introspecção exige recursão por definição. Se o eu percebe a si mesmo, isso é recursão. Assim, a frase “Penso, logo existo” é recursiva em vários níveis. A gramática recursiva conecta as duas frases, e a mente é dirigida a si mesma.
Descartes raciocinou que a realidade de qualquer coisa poderia ser posta em dúvida, com uma exceção. Você estende a mão e sente uma mesa? Bem, sabe-se que algumas pessoas alucinam coisas desse tipo. Talvez ela não esteja ali. O eu era a única coisa que ele não podia eliminar por meio do raciocínio, pois existe por definição se há um pensador realizando a dúvida. “Duvido, logo penso, logo existo.”
Há uma camada de recursão ainda mais sutil nessa frase. O “eu” é recursivo em repouso, não apenas quando percebe a si mesmo. Uma maneira de pensar nisso é em termos de capacidades. A divisão entre sua mente consciente e subconsciente é aquilo que você consegue e não consegue introspectar, não aquilo que está introspectando no momento. De modo semelhante, os limites do “eu” podem ser definidos pelo que consegue referenciar recursivamente a si mesmo, não pelo fato de estar realizando essa operação em determinado momento.
Argumentos mais sofisticados podem ser formulados. O clássico I Am a Strange Loop, de Douglas Hofstadter, apresenta a ideia de que o “eu” é resultado do mesmo tipo de paradoxo autorreferencial que Gödel usou para “destruir” a matemática. O artigo Consciousness as recursive, spatiotemporal self-location inclui uma dúzia de citações que conectam a recursão à consciência, assim como o verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre as Teorias de Ordem Superior da Consciência. Muitas pessoas brilhantes sustentam que o cerne daquilo que chamamos de “viver” exige recursão.
Tomamos como garantidas nossa relação com a dualidade e com o tempo, mas ambas são construídas sobre o fundamento da recursão. Vale a pena tentar compreender isso antes de prosseguir.
As perturbações do eu também são perturbações do tempo subjetivo. Doenças que afetam o ego, como a esquizofrenia e a doença de Alzheimer, também perturbam a experiência do tempo. Qualquer pessoa pode experimentar esse domínio tomando psicodélicos que produzem a dissolução do ego. Uma viagem desse tipo pode durar 15 minutos no relógio e parecer durar décadas. Um exemplo mais corriqueiro é o estado de fluxo, que parece alongar o tempo.
Como mencionado anteriormente, a viagem mental no tempo — pensar sobre o futuro ou o passado — é útil. Não é exagero chamá-la de viagem no tempo, dado que você está simulando o futuro, o que permite planejar para ele com flexibilidade. Isso é diferente de um comportamento instintivo, como o de um esquilo que enterra alimento para o inverno. Na verdade, os seres humanos podem usar a viagem mental no tempo para se desvencilhar dos instintos. Os seres humanos seguiram suas presas durante eras. Imagine os primeiros caçadores-coletores a se estabelecerem. Eles devem ter tido alguma ideia da estação seguinte e raciocinado que não precisavam seguir as manadas porque haviam plantado algumas culturas (ou dispunham de alguma outra alternativa).
Viver fora do momento é um novo tipo de alienação em relação ao mundo material. Muitos conhecem Joseph Campbell pela Jornada do Herói, a ideia de que há um modelo básico ao qual todas (a maioria?) as histórias se conformam. Isso foi popularizado como uma lista de ações que um herói realiza para transcender a si mesmo e à sociedade e então se reintegrar. Em seu último livro, Campbell descreveu como todas as histórias floresceram a partir da recursão:
no antigo mito da criação da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, sobre aquele Ser primordial de todos os seres que, no princípio, pensou “eu” e imediatamente experimentou, primeiro, medo, depois, desejo. O desejo, nesse caso, não era comer, mas tornar-se dois e, então, procriar. E nessa constelação primordial de temas — primeiro, a unidade, embora inconsciente; depois, uma consciência da individualidade e o medo imediato da extinção; em seguida, o desejo, primeiro por outro e depois pela união com esse outro — temos um conjunto de “ideias elementares”, para usar o termo feliz de Adolf Bastian, que foi entoado e inflexionado, transposto, desenvolvido e entoado novamente em todas as mitologias da humanidade ao longo das eras. E, como uma tensão estruturante constante subjacente ao jogo interminável desses temas, há a tensão polar primordial de uma consciência da dualidade contra um conhecimento anterior, porém perdido, da unidade, que continua pressionando em busca de realização e pode, de fato, irromper, em certas circunstâncias, num arrebatamento de perda de si.
A narrativa pressupõe a autoconsciência. Isso foi reconhecido na Antiguidade e posteriormente desenvolvido por figuras como Campbell e Jung no século XX. Com a autorreferência, nossos impulsos animais tornaram-se sinfonias fractais de anseio e imaginação.6 Antes do “eu”, não havia histórias, e não existia algo como “viver”.
Na psicologia e na linguística, é uma visão dominante que a recursão fundamenta as vantagens competitivas mais desproporcionalmente poderosas dos seres humanos. Na filosofia, é amplamente considerada um requisito para a consciência, pelo menos do tipo que os seres humanos possuem. A seção seguinte tenta entrelaçar utilidade e subjetividade em um modelo unificado.
O Giro Original: alguns modelos do primeiro pensamento recursivo #

Em The Faculty of Language, Steven Pinker e Ray Jackendoff discutem por que o pensamento recursivo evoluiu: “Aqui, o problema não é uma escassez de candidatos a antecedentes evolutivos, mas um excesso.” Ainda assim, eles oferecem algumas possibilidades: música, cognição social, decomposição visual de objetos em partes e formulação de sequências complexas de ações. Eu gostaria de oferecer mais uma: o pensamento recursivo propulsor era “eu sou”.
Descrever essa epifania traz à mente um grupo de homens cegos apalpando um elefante e declarando que ele consiste em pernas como troncos de árvore, lanças de marfim ou abas de pele áspera. Como eles, apresentarei vários modelos relacionados que espero que descrevam a transição dos seres humanos para a sapiência.
O primeiro modelo se baseia em Freud, dividindo a psique em id, ego e superego. O id é a natureza animal básica voltada para a satisfação das necessidades físicas. As primeiras bactérias devem ter tido algo semelhante: deslocar-se em direção a uma salinidade confortável. Nos seres humanos, isso se amplia para alimento, sexo, abrigo e coisas do gênero. O superego é exclusivo dos seres humanos. Ele é seu modelo das expectativas da sociedade. Aquilo que os outros — seja abstraídos como “sociedade”, seja pessoas específicas como mãe ou chefe — esperam. O ego também é exclusivo dos seres humanos e faz a mediação entre essas duas forças frequentemente contraditórias. Isso implica que ele evoluiu depois do superego.
A Teoria da Mente precedeu a autoconsciência recursiva. Antes da recursão, o superego era composto de modelos de como os outros se comportariam e do que esperariam, assim como é agora. Contudo, um ego pré-recursivo é uma criatura diferente: um protoego. O protoego também era um modelo da mente (nesse caso, da própria mente). Como mediador, ele estaria bem conectado tanto ao superego quanto ao sistema interoceptivo, acompanhando as necessidades do corpo (uma parte importante do id). O primeiro “eu sou” corresponde ao ego tornando-se autorreferencial, recebendo a si mesmo como entrada. O eu finalmente percebeu o eu e, ao fazê-lo, nasceu.
Em outras palavras, construímos um mapa de nossa mente, e o mapa tornou-se o território “Eu”. Ou, como formulou Joscha Bach, “Existimos dentro da história que o cérebro conta a si mesmo.” Isso sugere uma resposta direta à antiga questão sobre o que a linguagem tem a ver com a consciência. A consciência requer autorreferência, que, por sua vez, permite a linguagem plenamente gramatical. Ambas provêm da recursividade. (Vale notar que as palavras existiam antes da linguagem plenamente gramatical ou da autorreflexão. Afinal, Adão nomeou os animais enquanto estava no Éden.)
Uma deficiência desse modelo é que ele faz a transição parecer o surgimento de uma coisa, o ego. É mais correto entendê-la como a descoberta de um novo espaço ou dimensão. Minha analogia favorita tem milhares de anos e é comum a muitas religiões. Com a recursividade, os humanos desenvolveram um novo olho capaz de perceber o espaço simbólico. Um Terceiro Olho, por assim dizer. Assim como nossos olhos nos permitem ver o espectro eletromagnético, essa nova arquitetura autorreferencial em nosso cérebro nos permite perceber o reino simbólico. O mundo abstrato da arte, da matemática, dos ideais (platônicos) e do futuro.
Richard Dawkins disse que houve dois grandes momentos evolutivos. O primeiro foi o surgimento do DNA, que marcou o início da evolução biológica. O segundo foi o surgimento dos memes. Assim como os genes se propagam saltando de corpo em corpo por meio de espermatozoides ou óvulos, os memes se propagam no conjunto de memes saltando de cérebro em cérebro. Recebemos ideias, refinamo-las ou as mutamos, e as transmitimos. No longo prazo, as melhores ideias vencem. Nesse ponto, os humanos são totalmente dependentes dos memes altamente evoluídos distribuídos por incontáveis cérebros humanos (e agora também por livros e computadores). O universo memético é nosso habitat natural em grau muito maior que o mundo material. Isso acompanha o fato de existirmos “dentro da história que o cérebro conta a si mesmo”. Um cérebro capaz de produzir tal “Eu” tem uma visão privilegiada do universo memético. Somos a única espécie capaz de “ver” a maioria dos memes — isto é, de sustentar e perceber ideias abstratas ou simbólicas. A primeira pessoa a pensar “Eu sou” estava, em um sentido muito real, tropeçando para dentro de uma nova dimensão. Desde então, construímos castelos no céu e também na terra. Os humanos reinam supremos no mundo material porque somos os únicos nativos do nicho memético.
O modelo final que apresento é aquele que me conduziu a esta toca do coelho desde o princípio. Muitos cientistas dizem que a linguagem evoluiu nos últimos 100.000 anos. Por que, então, a voz interior é uma característica tão central do pensamento consciente? Como a linguagem foi integrada de maneira tão completa ao pensamento se a consciência remonta a cem milhões de anos?
Considere o experimento mental: o que disse a primeira voz interior? Em Consequências da Consciência, raciocinei que, dada a natureza social de nossa espécie, a primeira voz interior pode ter sido uma injunção moral como “Compartilhe sua comida!” Mas o conteúdo não importa tanto. Ela também poderia ter dito “Corra!” quando o inconsciente de um de nossos ancestrais percebeu que os pássaros haviam ficado silenciosos demais. A questão é: ela teria se identificado com a primeira voz interior? Acho que não. A identidade é complexa e requer recursividade. A alucinação não requer recursividade e ainda é comum. Isso sugere reformular “Quando a recursividade evoluiu pela primeira vez?” como “Quando os humanos se identificaram pela primeira vez com sua voz interior?”
Enquanto escrevia um texto sobre vozes interiores (Consequências da Consciência), tive dificuldade para transmitir a significância fenomenológica desse momento. Ocorreu-me que eu não poderia fazer melhor que o Gênesis, que se parece muito com a narrativa de Adão aprendendo que sua voz interior é ele mesmo. Antes dessa compreensão, o que teriam sido as vozes alucinadas do superego, senão os deuses, distribuindo conselhos ou comandos? Segue-se que Satanás disse a verdade quando afirmou que os olhos de Eva seriam abertos e que ela se tornaria como os deuses.
Isso faria com que o Gênesis remontasse ao início do tempo fenomenológico. Levar essa ideia a sério tem todas as características de um voo desvairado da imaginação. Mas acho que isso se deve sobretudo à convenção. Fundamentalmente, a questão é por quanto tempo a informação pode ser preservada no mito e há quanto tempo os humanos demonstram vida interior pela primeira vez. Surpreendentemente, há fortes evidências de que os mitos podem sobreviver desde aproximadamente a época em que os humanos começaram a fazer qualquer coisa que indique pensamentos recursivos. Talvez não surpreendentemente, nenhuma pessoa de orientação científica tenha tentado juntar as duas coisas há muito, muito tempo. Essa é a missão quixotesca deste tolo.
Teoria de Eva da Consciência (EToC) #
A possibilidade de o Gênesis ser uma memória cultural da descoberta da condição humana resume-se a duas perguntas:
- Quanto tempo pode durar um mito?
- Quando nos tornamos humanos?
Se elas tiverem aproximadamente a mesma duração, então o Gênesis poderia ser uma memória de nossa gênese. Ambas as perguntas são difíceis, mas não totalmente insolúveis. Escrevo sobre a primeira pergunta aqui, dando vários exemplos de memes globais cuja existência foi atestada pela primeira vez há cerca de 30.000 anos. Por razões estatísticas, o exemplo mais simples é o das Sete Irmãs. Em dezenas de culturas, da Grécia à Austrália e à América do Norte, diz-se que o aglomerado estelar das Plêiades representa Sete Irmãs, embora apenas seis estrelas sejam visíveis. A discrepância costuma ser um elemento do enredo da história: uma irmã desaparecida. Dado esse detalhe, os mitos das Sete Irmãs no mundo inteiro devem compartilhar uma raiz comum. Não é um enredo que surgiria de forma independente.
As sete estrelas estão pintadas nas paredes de cavernas na França, 21 kya, e na Austrália, em meados do Holoceno, onde também fazem parte do mito da criação do Tempo do Sonho. A maioria dos pesquisadores interpreta isso como significando que o mito tem cerca de 100.000 anos. Como explicarei mais adiante, não é necessário postular nada muito além de 30.000 anos. Em grande parte porque, em relação à pergunta 2, não há evidências convincentes de pensamento recursivo (incluindo ficção) antes da Modernidade Comportamental, há 40–50 kya. Essa transição é debatida, e voltaremos a ela. Mas, por ora, basta estabelecer que há uma sobreposição considerável entre as estimativas predominantes para 1 e 2. Apresentarei uma versão fraca e uma forte de como a cultura recursiva poderia ter se disseminado. Começarei pela fraca, que não depende de nenhum texto religioso, e depois passarei à forte, que interpreta detalhes comuns dos mitos da criação como dotados de significado.
EToC fraca #
Os humanos de hoje possuem uma construção do eu bastante contínua. Há fissuras nas bordas, particularmente se você usa drogas, medita ou tem esquizofrenia. Mas muitos atravessam a vida tomando o “Eu” como algo dado desde aproximadamente os 18 meses de idade. No início, esse não teria sido o caso. Os ciclos recursivos são inerentemente instáveis. Há configurações estáveis, mas é improvável que nossa estrutura cognitiva tenha saltado da ausência de recursividade para a recursividade como um ciclo infinito estrutural sem uma evolução significativa. Isso exigiria gerações de seleção natural para a construção contínua do eu em idade precoce.
É instrutivo imaginar a primeira pessoa a pensar: “Eu sou”. Os humanos modernos se tornam autoconscientes quando são crianças pequenas, ao que parece. Eles conseguem, pelo menos, usar “Eu” corretamente, passar no teste do espelho e suas imagens cerebrais já não parecem as de alguém em uma viagem de ácido. Meu palpite é que a primeira pessoa senciente não era uma criança pequena, pois crianças pequenas não são particularmente introspectivas nem boas em Teoria da Mente. Nesse caso, a primeira pessoa senciente teria sido um adulto que vivera toda a sua vida até aquele momento em uma unidade não reflexiva. Chamemo-la Eva. É possível que ela estivesse grávida ou atravessando a puberdade quando teve a revelação, pois esses são períodos de grande reorganização cerebral, particularmente relacionados à cognição social. De todo modo, uma vez que o “Eu sou” foi obtido por adultos ou adolescentes, a seleção para a recursividade significaria desenvolver o “Eu” cada vez mais cedo. Por fim, isso reduziu a idade até cerca de 18 meses.
Também teria havido seleção para uma recursividade mais funcional. Com isso, não quero dizer mais inteligente ou melhor em gramática, embora isso faça parte dela. A lente mais clara é a fenomenológica. A evolução de uma alma abre todo o mundo espiritual, grande parte do qual é assombrado. Os primeiros humanos teriam sido muito mais esquizofrênicos, sem saber exatamente onde começava o “Eu” e onde começavam outros espectros imaginados. Alucinar vozes é o sintoma mais conhecido, mas a esquizofrenia também inclui uma perda do senso de agência e a sensação de que o próprio corpo (ou alguma parte dele) não pertence à pessoa. Retroceda o suficiente, e isso teria sido a norma. E, mais para trás ainda, não haveria “proprietário” algum. Existe um espectro de quão suavemente a recursividade opera como modo padrão. Perturbações modernas, como epilepsia ou esquizofrenia, correspondem a esse espectro, mas são insignificantes em comparação com a variação que existia no passado. As primeiras mil lâmpadas eram extremamente defeituosas segundo os padrões atuais. O mesmo vale para a luz da consciência. Como escrevi anteriormente, o período evolutivo intermediário poderia ser chamado de Vale da Insanidade. Quanto mais tempo a recursividade levou para evoluir, mais tempo os humanos passaram como Homo Schizo.
As primeiras mil pessoas a terem pensado “eu sou” podem ter perdido esse fio de pensamento e continuado a viver em unidade com o universo. Se tivessem tal conceito, “estados alterados de consciência” teria se referido à dualidade — ao nascimento do ego, não à morte do ego. Imagine a primeira pessoa para quem “eu sou” persistiu por algum tempo. Como seria explicar a situação ao restante da tribo? Loucura absoluta. Como descrever o sabor do “sal” a um alienígena baseado em silício que só fala espanhol. Ninguém compreendeu a primeira Eva, e o moedor evolucionário de carne continuou a funcionar. Dado que a recursão é diabolicamente útil, aqueles que tendiam a ter a epifania do “eu” também podem ter tendido a ser melhores em outras tarefas (proto-)recursivas, como a navegação social ou a contagem, fazendo com que tivessem mais filhos. Mesmo uma pequena correlação entre o “eu” e essas tarefas seria suficiente para que uma experiência temporária do “eu” se tornasse mais comum centenas de gerações depois da primeira epifania. E provavelmente havia uma correlação, dada a extensão em que o cérebro utiliza redes recursivas para muitas tarefas.
Em algum momento, seria atingida uma massa crítica. Pessoas suficientes vivenciariam o “eu” — talvez apenas esporadicamente — para construir uma cultura em torno dele. Isso criaria um gradiente acentuado de aptidão para aqueles capazes de participar de uma cultura recursiva. Em outras palavras, os indivíduos menos recursivos morriam ou tinham menos filhos. Considere todas as maneiras pelas quais isso poderia ter ocorrido ao longo de muitos milhares de anos:
- A linguagem torna-se recursiva; com ela, as piadas ao redor da fogueira, as instruções para fabricar um machado e a interminável fofoca da pequena tribo.
- O xamanismo e todo o plano espiritual só são apreciados por aqueles capazes de vivenciar a dualidade.
- O engano mais sofisticado exige recursão. Com a dualidade, é preciso aprender a usar uma máscara. Todos os demais são alvos fáceis da tecnologia social de dizer uma coisa e querer dizer outra.
- A recursão modifica a relação de uma pessoa com o tempo, permitindo um planejamento mais flexível do futuro. Isso se expressa na linguagem por meio dos tempos passado e futuro, complicando ainda mais a gramática.
- A música e a dança utilizam estruturas recursivas.
Esse processo de seleção poderia ter ocorrido com bastante rapidez. Digamos que a “construção contínua do self” seja tão hereditária quanto a esquizofrenia (~50%) e esteja correlacionada em r = 0,1 com a aptidão (número de filhos sobreviventes). Isso é bastante conservador, pois, atualmente, as pessoas com esquizofrenia têm apenas cerca de 50% do número de filhos (uma enorme penalidade de aptidão). A lei da selva paleolítica pode ter sido ainda mais severa com aqueles cuja apreensão da realidade era fragmentada.
Inserindo esses parâmetros conservadores na Equação do Melhorista, a capacidade recursiva (funcionamento ininterrupto e aquisição em idades mais jovens) poderia aumentar em um desvio-padrão a cada 20 gerações, ou ~500 anos.7 Eis até onde a recursão deslocaria uma população ao longo de 2.000 ou 5.000 anos:

Em 2.000 anos, quase não há sobreposição entre as populações. Em comparação, isso equivale aproximadamente à diferença de altura entre meninos de 8 e 12 anos. Em 5.000 anos, não há sobreposição. Essas são populações cognitivamente distintas. Agora considere 20.000:

Há muitas suposições envolvidas em um modelo como este, mas a principal que precisa se sustentar é uma seleção consistente para a recursão. Isto é, aqueles com uma construção contínua do self precisam ter sempre um número ligeiramente maior de filhos do que aqueles que não a têm. Isso parece perfeitamente razoável. Uma correlação de r = 0,1 é quase imperceptível na vida real, e o pensamento recursivo oferece vantagens. Lembre-se de que Dawkins afirmou que o surgimento dos memes é um dos dois grandes momentos evolutivos. Somente pensadores recursivos poderiam acessar esse grande reservatório de conhecimento. A capacidade de compreender uma cultura recursiva é uma estratégia completamente poderosa demais para transmitir os próprios genes. Nos últimos 50.000 anos, usamos essa ferramenta para conquistar o mundo, levando muitas espécies à extinção e desfrutando, ao longo do caminho, de um crescimento populacional exponencial. Quem estava tendo mais filhos, então? Aqueles que eram marginalmente melhores em recursão. É difícil imaginar um cenário em que não tenha havido seleção durante esse período.
Assim, quando digo “escalas temporais evolutivas”, refiro-me a um período suficientemente longo para que não haja sobreposição entre as capacidades recursivas de duas populações. Tempo suficiente para que fossem cognitivamente estrangeiras. Tribos em que os homens desenvolvem a consciência na infância versus durante a puberdade, ou que apresentam taxas de esquizofrenia de 1% versus 10%. Acontece que esse período pode ser tão curto quanto alguns milhares de anos. E essa estimativa está perfeitamente dentro dos limites das respostas predominantes. Na verdade, Noam Chomsky afirma que isso levou apenas uma geração.
Chomsky e outro linguista chamado Andrey Vyshedskiy propuseram teorias segundo as quais uma única mutação, ocorrida há 50–100 kya, possibilitou a recursão, e todos nós somos descendentes desse afortunado antepassado. Isso resolve a questão dos graus (tratava-se de um único gene, como um interruptor) e elimina o Vale da Insanidade. Também está quase certamente errado. Funções recursivas tendem a ser instáveis, portanto seria uma grande surpresa se isso tivesse sido resolvido de uma só vez. Milhares de genes influenciam a esquizofrenia e a capacidade linguística. A evolução da vida interior deve implicar um número igualmente grande. Além disso, agora sequenciamos os genes de milhões de pessoas, incluindo centenas de seres humanos pré-históricos. Nas palavras do geneticista populacional David Reich, se houve uma “única mudança genética crítica”, ela está “ficando sem lugares onde se esconder”. Muito do que escrevo é especulativo, mas não vejo como contornar o fato de que a transição para a sapiência foi psicologicamente muito estranha. Deve ter havido um período em que a vida interior era muito mais fragmentada. Assim que a recursão começou a evoluir, ela se tornou uma vantagem competitiva tão grande que teria compensado qualquer perda de aptidão, inclusive efeitos colaterais desagradáveis, como possessão demoníaca e cefaleias em salvas, que teriam sido transmitidos junto com ela. Frequentemente, a autodomesticação humana é discutida em termos de tornar-se mais pró-social e feminina. Sim, mas penso que o gradiente de seleção mais acentuado deve ter sido para a “construção contínua do self”. Um “eu” nitidamente delineado e a sensação de estar no controle do próprio corpo. E para que isso se desenvolvesse cedo.
Este é um modelo de o que estava evoluindo; agora consideremos quando. Abaixo está uma linha do tempo que será familiar para a maioria, elaborada por um Antropólogo Evolutivo para o The Conversation:

Ela reconhece que as evidências do comportamento humano só começam de fato por volta de 65 kya, com o “Grande Salto”. No entanto, arte, linguagem, música, casamento e narração de histórias são projetados retrospectivamente até 300 kya. O raciocínio é que esses elementos são universais culturais entre os seres humanos vivos, portanto devem remontar à nossa raiz genética. Ramos da humanidade estão separados há 300.000 anos, portanto a arte deve remontar pelo menos a esse período. Como afirma o artigo:
“Herdamos nossa humanidade de povos da África meridional há 300.000 anos. A alternativa — a de que todos, em toda parte, coincidentemente se tornaram plenamente humanos da mesma maneira e ao mesmo tempo, a partir de 65.000 anos atrás — não é impossível, mas uma origem única é mais provável.”
Isso simplesmente não é verdade, dado que a cultura pode se disseminar. Se a cultura recursiva tivesse se difundido no limiar da sapiência, ela teria alterado a paisagem adaptativa onde quer que chegasse. Pessoas não recursivas ou semirrecursivas poderiam ter evoluído para ocupar o nicho memético nos milhares de anos subsequentes. Também está errado quanto ao isolamento genético. O ancestral comum mais recente da humanidade — a pessoa mais recente de quem todos os seres humanos vivos são parentes — é muito mais recente do que 300 kya. A Scientific American cita estudos que estimam que isso tenha ocorrido há apenas 2–7 kya. Os genes se disseminam. Se houvesse genes importantes para a recursão, eles poderiam ter se espalhado a partir de 50 kya. Na nota de rodapé, abordo outros problemas com a data de 300 kya8. Mas não quero dedicar tempo demais a isso. O propósito deste ensaio é separar nossas raízes culturais e genéticas. A cultura recursiva poderia se disseminar e, então, provocar seleção para a cognição humana moderna. Em teoria, isso poderia acontecer mesmo sem contato genético entre os grupos.
A formulação desse antropólogo incorpora outra suposição comum: os seres humanos devem ter sido plenamente humanos desde o momento em que há evidências de arte ou de outro comportamento moderno. Mas o ponto que venho tentando martelar é que teria sido necessário tempo para que a recursão evoluísse. A primeira pessoa a pensar “eu sou” não era como nós. Tampouco eram os primeiros artistas, há 40 kya. Se estabelecêssemos uma agência de adoção trans-temporal, as crianças de 40 kya não cresceriam para se tornar advogados, médicos ou engenheiros. Elas seriam conscientes, mas, em uma cidade moderna, muito provavelmente acabariam institucionalizadas. A evolução de algo tão sutil quanto um Terceiro Olho leva tempo.
A melhor maneira de compreender quando os humanos se tornaram cognitivamente ativos é examinar o registro arqueológico e buscar evidências de seleção natural em nossos genomas. Começando pela arqueologia, a data de 65 kya usada no gráfico é bastante generosa. A arte mais impressionante desse período se parece com isto:

Isso não é uma evidência muito boa de pensamento recursivo. Eu ficaria surpreso se uma pega tivesse feito isso, mas não seria a coisa mais engenhosa que já vi um animal fazer. Isso não requer uma noção do eu, do futuro ou da ficção. Compare isso às estatuetas de Vênus produzidas da Europa à Sibéria a partir de 40 kya:

Há muitas interpretações das estátuas de Vênus, e todas requerem recursão. De modo particularmente contundente, elas podem ter sido autorretratos, o que corresponde ao tipo de arte que se esperaria que fosse produzido com a descoberta do “eu”. Além disso, aproximadamente nessa época, em todo o mundo, é possível encontrar exemplos inequívocos de recursão. Como mencionado anteriormente, contar requer recursão. O bastão de contagem mais antigo remonta a 44 kya, na África do Sul. É notável que ele tenha 28 entalhes, e sugeriu-se que tenha sido feito por uma mulher para acompanhar seu ciclo menstrual, embora também pudesse tratar-se do ciclo lunar. Acompanhar esses ciclos é uma das primeiras tecnologias que se esperaria que se desenvolvesse com a descoberta do tempo subjetivo. Por fim, a Indonésia abriga a mais antiga arte narrativa conhecida, uma pintura rupestre datada de 45 kya. Como em outros exemplos antigos de recursão, há uma conexão com as mulheres. Grande parte da arte rupestre mais antiga consiste em impressões de mãos. As proporções dos dedos indicam que as mulheres deixaram três quartos delas.
Esses artefatos preenchem todos os requisitos recursivos: contagem, arte, narrativa e interesse pela identidade, pela dualidade e pelo tempo. Na literatura, essa transição é chamada de Modernidade Comportamental. A ideia de que nossas mentes assumiram sua forma atual entre 40–20 kya foi dominante até a década de 1990. Por exemplo, o atual curador de paleoantropologia do Museu Peabody de Harvard escreveu:
“O período entre 50.000 e 30.000 anos atrás testemunhou a disseminação do homem moderno para fora de seu hipotético ‘Jardim do Éden’, até que, por meio de um processo de inundação e substituição de subespécies mais antigas e arcaicas de H. sapiens, ele herdou a Terra.” ~ The Ascent of Man, David Pilbeam
Ascent foi escrito em 1972 e reimpresso em 1991, não faz tanto tempo assim. Ainda em 2009, o psicólogo Frederick L. Coolidge e o antropólogo Thomas Wynn escreveram: “A interpretação mais parcimoniosa é que as funções executivas modernas não surgiram muito antes de 32.000 anos atrás.”9
Contudo, nas últimas décadas, evidências de divergências genéticas profundas no interior da África complicaram essa visão, e definições mais inclusivas de humanidade (às vezes sem linguagem recursiva) tornaram-se populares. Mas, novamente, uma das vantagens da EToC é permitir raízes genéticas e meméticas separadas para a humanidade. Demonstrar divergências genéticas profundas não significa que alguém de 300.000 anos atrás tivesse o dote genético para a recursão, muito menos para uma recursão estável.
A maioria dos leitores provavelmente está ciente da transição para a Modernidade Comportamental entre 40–50 kya. Menos conhecido é o fato de que essa transição foi um processo. O nível cultural alcançado na Eurásia há 40 kya só foi atingido em todo o mundo muito mais tarde. Por exemplo, um artigo de 2005 argumenta que os marcos da revolução simbólica só são evidenciados na Austrália nos últimos 7.000 anos.10 Além disso, antes do Holoceno (12 kya), o conjunto de ferramentas culturais australiano se assemelha mais estreitamente ao do Paleolítico Inferior e Médio da Europa e da África (3.300–300 kya e 300–30 kya, respectivamente). Em outras palavras, as ferramentas estavam milhões de anos atrasadas. Em termos evolutivos, isso ocorreu antes mesmo de existirem Homo sapiens, neandertais ou denisovanos. Homo erectus ligou, e quer suas ferramentas de pedra de volta.11 (É importante observar que os autores usam isso para argumentar contra a Modernidade Comportamental. Eles não consideram que isso represente uma mudança evolutiva significativa, dada a sua recência.)
De modo mais amplo, o arqueólogo Colin Renfrew propôs o Paradoxo Sapiens, que pergunta: Se os seres humanos são cognitivamente modernos há 50 mil, 100 mil ou 300 mil anos, por que o comportamento moderno não se disseminou até aproximadamente o fim da Era do Gelo? Segundo Renfrew, “De longe e para o antropólogo não especialista, a Revolução Sedentária [12 kya] parece ser a verdadeira Revolução Humana.”
Ele não está sozinho. Michael Corballis apresenta dois períodos possíveis para a evolução da recursão: 400–200 kya e 40–10 kya.12 Ainda no ano passado, o linguista George Poulos argumentou que “a linguagem, tal como a conhecemos hoje, provavelmente começou a surgir há cerca de 20.000 anos.” Da mesma forma, os linguistas Antonio Benítez-Burraco e Ljiljana Progovac propõem um modelo de quatro estágios para a evolução da linguagem, com a recursão presente apenas nos últimos 10.000 anos. Segundo a análise deles, foi somente então que os seres humanos demonstraram um comportamento complexo o suficiente para exigir uma linguagem recursiva. Além da complexidade social, eles apontam para a mudança global para um formato de crânio mais globular nos últimos 35.000 anos. É uma peculiaridade do termo “Humano Anatomicamente Moderno”. Ele é aplicado a seres humanos de 200 kya, mas não significa “poderia passar por um humano moderno.” Significa “tem características como um esqueleto grácil e uma crista supraorbital reduzida, que hoje são comuns aos seres humanos e nos distinguem dos membros extintos do gênero Homo.” Nossos crânios não são iguais nem mesmo aos de 50 kya!
Se houve uma reorganização do cérebro para a recursão nos últimos 50 kya, então seria de esperar:
- Mudanças no formato do crânio
- Muitas novas mutações genéticas relacionadas à cognição
Como mencionado anteriormente, os crânios estavam tornando-se mais femininos e globulares nesse período. Voltando à segunda questão, o artigo Genetic timeline of human brain and cognitive traits é instrutivo. Abaixo, um gráfico dos novos genes que entram no pool gênico. Observe o surto que atinge o pico há 30 mil anos, muitos dos quais são genes cognitivos. Assim como no registro arqueológico, não há muita coisa acontecendo há 200 mil anos. Quando parece que entramos em um novo nicho e encontramos novos problemas que exigiam novo material genético para serem solucionados?

Os autores destacam que “genes que contêm modificações evolutivas recentes (de aproximadamente 54.000 a 4.000 anos atrás) estão associados à inteligência (P = 2 x 10-6) e à área da superfície neocortical (P = 6.7 x 10-4), e que esses genes tendem a ser altamente expressos em áreas corticais envolvidas na linguagem e na fala (pars triangularis, P = 6.2 x 10-4).”
Um artigo de 2022 encontrou sinais de forte seleção para genes relacionados ao cérebro e ao comportamento nos últimos 45 mil anos, bem como no período de 80 a 45 mil anos atrás. Os autores sugerem que essas são adaptações para lidar com o ambiente relativamente mais frio da Arábia Saudita, à medida que os humanos deixavam a África:
“Embora as funções neurológicas inicialmente pareçam surpreendentes, é possível que essa observação esteja relacionada sobretudo ao papel crítico que o sistema nervoso e o cérebro desempenham na coordenação, integração e subsequente regulação de diversos processos fisiológicos, os quais são afetados por ambientes frios.”
É de se perguntar se a Arábia Saudita era fria o bastante para causar mudanças tão significativas na função cerebral.13 Eles também mencionam que, “provocativamente”, isso poderia indicar uma evolução cognitiva para a sociabilidade.14 (E eu acrescentaria a recursividade, cuja primeira evidência surge aproximadamente nessa época.)
Assim, a versão fraca da EToC é que a cultura recursiva se disseminou e modificou a paisagem de aptidão. A recursividade nem sempre se distribuía uniformemente pelo mundo, mas uma cronologia aproximada é que houve momentos de dualidade entre 50 e 100 mil anos atrás15, e que a recursividade foi “posta em prática” há 50 mil anos, quando estava psicologicamente integrada o suficiente para começar a construir uma cultura em torno de habilidades recursivas. Como a recursividade é encontrada pouco depois em todo o mundo, essa cultura deve ter se disseminado. Naquele momento, o “eu” não era necessariamente uma presença constante e ininterrupta. A relação dos indivíduos com sua voz interior poderia ser radicalmente diferente. Em algum ponto, talvez bastante recente, a construção contínua do eu tornou-se a norma mundial, e as interrupções são agora patologizadas.
A maior parte da seleção teria ocorrido nos últimos 50.000 anos. Como poderia ter havido seleção para o pensamento simbólico antes de existir uma cultura simbólica? A seleção teria ocorrido pouco a pouco no início. Ela deve ter começado com humanos apenas parcialmente recursivos produzindo uma cultura apenas parcialmente recursiva. Talvez esse tenha sido um equilíbrio estável durante algum tempo, dadas todas as dificuldades causadas pela recursividade. Em determinado ponto de complexidade cultural, o pensamento recursivo se tornaria um requisito básico, criando um gradiente de seleção acentuado.
A questão sobre o que nos torna humanos remonta a milhares de anos. A maior parte do que apresento é uma revisão. Entre as muitas teorias concorrentes, escolhi enfatizar a recursividade — em vez de, digamos, o pensamento simbólico — porque ela é uma maneira natural de mostrar que a transição humana foi tanto prática quanto fenomenológica. Evoluímos uma alma, e isso nos permitiu conquistar o mundo. A maioria das interpretações da autodomesticação enfatiza a convivência e a não agressão, a diferença entre lobos e cães. Para os humanos, contudo, a mudança foi categórica. Homo sapiens significa “Homem Pensante”. Humanos não recursivos não eram sapientes. Sua relação com o tempo e com o mundo material é tão diferente da nossa quanto a água é do gelo. Os humanos são absolutamente singulares enquanto espécie. Isso não é realmente uma contribuição, pois vem sendo dito há milhares de anos. Minha contribuição é a maneira como acho que essa transição poderia ter ocorrido ao longo de escalas temporais evolutivas. Também é digno de nota que meu modelo (muito incompleto) daquilo que torna os humanos especiais não é necessário para o restante. Se você não concorda com a recursividade, substitua-a por “pensamento simbólico”, “linguagem”, “pensamento de ordem superior” ou sua definição preferida de “alma”. O único requisito real é que se trate de uma mudança de fase.
Muitos pesquisadores acreditam que algo biológico mudou há aproximadamente 50 mil anos, e a linguagem (ou a recursividade) está entre as principais hipóteses. Minha divergência é, em certa medida, a ênfase na interação gene-cultura e na duração que o processo poderia ter tido. Mesmo que houvesse momentos de sapiência há 50 mil anos, uma psicologia plenamente moderna poderia ter sido alcançada muito mais tarde. A versão fraca da EToC postula que a “cultura recursiva” se disseminou nos últimos 50.000 anos. Para defender essa ideia, é mais fácil dizer exatamente o que era essa cultura. A versão forte da EToC sustenta que as mulheres, em sua maioria, foram as primeiras a compreender “eu sou”. Mais tarde, desenvolveram rituais psicodélicos da serpente para auxiliar nessa epifania, e esses rituais se disseminaram. A perspectiva masculina é preservada em muitos mitos de criação, incluindo o Gênesis. É por isso que enfatizei as implicações fenomenológicas da recursividade. As histórias dignas de serem recontadas dizem respeito a mudanças na consciência, não à tecnologia. Portanto, se a recursividade evoluiu dentro do alcance da tradição oral, o que seria transmitido com maior reverência seriam as mudanças relacionadas ao tempo, à autoconsciência, à agência e à dualidade. Não preocupações utilitárias, como uma gramática mais complexa ou ferramentas de pedra (embora sua introdução também seja lembrada).
O Culto da Serpente da Consciência #

“E a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.” Gênesis 3:5
A expulsão de Adão e Eva foi resultado da lei natural, não de um deus caprichoso que distribuía mandamentos contraditórios. Assim que Eva percebeu a si mesma como uma agente e reconheceu como sua a voz em sua cabeça, já não podia continuar vivendo em ignorância bem-aventurada. Tornou-se responsável por suas ações e consciente de sua mortalidade. Outros propuseram essa interpretação. Julian Jaynes chegou a relacioná-la à identificação com a voz interior. Mas o que há com a serpente?
Se você usasse uma máquina do tempo para visitar humanos no limiar da recursividade, poderia ensiná-los sobre o “eu”? O que tentaria fazer? Eu incorporaria o “eu” a um ritual de horror. Uma sala de fuga cuja única saída estivesse voltada para dentro. Isso acionaria muitas alavancas biológicas, incluindo os psicodélicos, dada sua capacidade de ajudar a mudar a mente. Os efeitos agudos incluem a abertura da mente e a possibilidade de pensamentos novos. São particularmente afetadas as funções relacionadas à introspecção e à consciência.
É um tanto estranho que uma classe de drogas mais conhecida pela morte do ego pudesse estar envolvida no nascimento do ego. Mas o mecanismo proposto é mais um “reinício cerebral”, durante o qual um iniciado tem muitas ideias novas — esperançosamente incluindo “eu sou” — seguido por semanas de aumento da plasticidade cerebral, nas quais essas ideias podem ser integradas. Essa ideia não é minha. Terence McKenna propôs a Teoria do Macaco Chapado em seu livro Food of the Gods: The Search for the Original Tree of Knowledge.
Para McKenna, a relação entre a consciência e os psicodélicos era prática. Quando fazia uma viagem, ele via a consciência sendo construída em sua mente. Uma de suas exposições mais eloquentes é sobre entidades que descreveu como elfos-máquinas auto-transformadores — criaturas fantásticas feitas de linguagem. “Não sei por que deveria haver uma inteligência sintática invisível dando lições de linguagem no hiperespaço. Certamente, de modo consistente, é isso que parece estar acontecendo.” Com base em sua educação no hiperespaço, ele concluiu que a linguagem era fundamental para a consciência e que os psicodélicos poderiam ajudar a obtê-la.
McKenna argumentava que o Alimento dos Deuses eram os cogumelos de psilocibina. Mas eles desempenham apenas um papel secundário na história religiosa. Na verdade, um candidato muito melhor está no próprio Gênesis: as cobras.16 Seu veneno é um psicodélico que contém grandes quantidades de fator de crescimento nervoso. Além disso, elas são adoradas globalmente como concedentes de consciência e têm sido ao longo de escalas de tempo evolutivas. Proponho que o Fruto original do Conhecimento era veneno de cobra.
Esta seção começa com uma investigação química e depois recua no tempo, passando dos rituais modernos com veneno de cobra à Antiguidade e à Idade da Pedra.
Veneno de Cobra como Enteógeno #

“O veneno funcionou muito bem para mim há muito tempo. Ele me tirou a vida, mas me deu algo mais precioso que a vida.” ~Sadhguru, “Por que bebi veneno de cobra”
Na década de 1970, o classicista Carl Ruck cunhou o termo entéogeno (literalmente, “deus dentro”) para se referir a alucinógenos usados para induzir estados alterados de consciência. É importante ressaltar que não se trata de qualquer alteração; eles devem ser usados para acessar o “divino interior”. A maioria das culturas parece ter pelo menos um entéogeno de sua preferência, seja ópio, cannabis, folhas de coca, raiz de iboga, sálvia, ayahuasca, cogumelos de psilocibina, noz de bétele, acácia ou sapo bufo, para citar alguns. O veneno de cobra é frequentemente deixado de fora dessa lista. Uma lacuna gritante na literatura que pretendo abordar aqui.
A primeira questão é química. O veneno de cobra pode funcionar como um entéogeno? Há alguns artigos — suficientes para justificar um artigo de revisão — sobre o veneno de cobra como droga recreativa. Os relatos de caso são semelhantes aos dos cogumelos de psilocibina. Em um deles, o veneno é administrado por via intravenosa, da presa à língua, pelo encantador de cobras do bairro. Com uma única dose, o paciente relata ter mudado comportamentos profundamente arraigados. Após uma década de dependência de álcool e opiáceos, abandonou ambos de uma vez depois de um único beijo da cobra. A Vice também tem um minidocumentário sobre o fenômeno na Índia e um caso isolado no Reino Unido.
Os psicodélicos estimulam a produção do fator de crescimento nervoso (NGF), o que permite maior plasticidade cerebral. Portanto, se você quer Mudar sua Mente, como Michael Pollen coloca, então os psicodélicos são uma ferramenta excelente. Atualmente, a área médica vive um boom psicodélico, no qual essas drogas estão sendo testadas para tratar praticamente qualquer problema psiquiátrico.
O veneno de cobra faz mais do que apenas estimular a produção de NGF; ele traz o próprio NGF para a festa. Na década de 1950, laboratórios obtinham NGF de tumores cerebrais de camundongos. Quando o veneno de cobra era usado para processar os tumores, o NGF resultante era muito mais eficaz. Após investigação, os pesquisadores descobriram que o próprio veneno de cobra contém NGF 3.000 a 6.000 vezes mais potente do que o derivado de tumores, a melhor fonte até então.
A plasticidade induzida não é apenas aguda, nem está relacionada exclusivamente ao NGF. Um artigo recente argumenta que o veneno de cobra poderia ser uma pedra angular do tratamento de doenças neurodegenerativas: “demonstra-se que um componente do veneno da cobra indiana N.naja17 sem semelhança significativa com o fator de crescimento nervoso induz neuritogênese sustentada [crescimento de conexões entre neurônios].” Atualmente, ele está sendo pesquisado para tratar a Doença de Alzheimer e a depressão. Isso é alentador, mas a medicina moderna ainda é jovem. A maior parte do potencial permanece desconhecida. Como afirmou um artigo recente: “os venenos de cobra podem ser considerados minicoleções de fármacos, nas quais cada fármaco é farmacologicamente ativo. No entanto, menos de 0,01% dessas toxinas foram identificadas e caracterizadas.”
Há a questão da administração. Não tenho certeza se o NGF é biodisponível quando injetado na língua ou ingerido por via oral misturado com leite, como fez Sadhguru. Este artigo constata que a língua é um local excelente para atravessar a barreira hematoencefálica (mesmo sem injeção). Mas há mais de uma maneira de esfolar um gato e ainda mais de fazer o dragão mágico soltar fumaça. O classicista David Hillman sugere que preparados de veneno de cobra eram administrados como supositórios anais em templos gregos. A administração não parece ser um fator limitante.
O critério final é saber se o veneno é ritualizado em um contexto espiritual. Há dezenas de vídeos no YouTube do guru hindu Sadhguru discutindo por que bebeu veneno de cobra. Em suas palavras:
“O veneno tem um impacto significativo na percepção de uma pessoa se você souber utilizá-lo… Ele cria uma separação entre você e seu corpo… É perigoso porque pode separá-lo para sempre.” O segredo desconhecido de como o veneno atua em seu corpo [experiência prática]
O uso espiritual do veneno não se limita a um único guru. As próximas seções examinarão as evidências mitológicas e arqueológicas ao redor do mundo. Isso está organizado em um raio em constante expansão: protoindo-europeu, Eurásia e América, e depois o mundo inteiro.
Protoindo-europeu #
“As serpentes eram ordenhadas para que se tivesse acesso a seus venenos como toxinas psicoativas, tanto para servirem como venenos de flecha quanto como unguentos, em doses subletais, para se ter acesso a estados sagrados de êxtase.” ~Carl Ruck, O mito da Hidra de Lerna

Os romanos copiaram e colaram o máximo possível da cultura grega. Ao olhar retrospectivamente para esse esforço, o orador romano Cícero teceu elogios aos Mistérios de Elêusis:
“Pois me parece que, entre as muitas coisas excepcionais e divinas que sua Atenas produziu e ofereceu à vida humana, nada é melhor que esses Mistérios. Pois, por meio deles, fomos transformados de um modo de vida rude e selvagem ao estado de humanidade, e fomos civilizados. Assim como são chamados iniciações, de fato aprendemos com eles os fundamentos da vida e compreendemos a base não apenas para viver com alegria, mas também para morrer com uma esperança melhor.” M. Tullius Cicero, De Legibus, ed. Georges de Plinval, Livro 2.14.36
Os Mistérios de Elêusis foram a celebração grega por excelência da morte e do renascimento. Eles narravam a história do rapto de Perséfone para o submundo e a busca, marcada pelo sofrimento, de sua mãe, Deméter, por seu retorno. Dizia-se que, no cerne desse relato, estava o segredo da vida. Ou, nas palavras do poeta grego Píndaro, “Bem-aventurado é aquele que, tendo contemplado esses ritos, desce sob a terra oca; pois conhece o fim da vida e conhece seu começo enviado pelos deuses.” O que era revelado sobre o começo da vida é, bem, um mistério. Tratava-se de um culto de mistério, e a punição por revelar seus segredos era a morte. Mas, mais ainda, as palavras não parecem adequadas à tarefa. Homero, que não costumava ficar sem palavras, ainda assim se esquiva em sua descrição: “O grande temor dos deuses faz a voz vacilar.” O que acontecia em Elêusis precisava ser vivenciado para ser compreendido.
Ainda assim, há algumas pistas. Em 1978, The Road to Eleusis, de Ruck, escandalizou o campo dos estudos clássicos ao defender que o cerne da iniciação era psicodélico. Brian Muraresku revisitou esse argumento em seu best-seller recente The Immortality Key: The Secret History of the Religion with No Name. (Confira a entrevista de Sam Harris.) Muraresku interpreta a promessa “Se você morrer antes de morrer, não morrerá quando morrer” como uma referência à morte do ego induzida por fungos. Como engenheiro, penso nessas possibilidades em termos mecânicos. Os psicodélicos são uma poderosa ferramenta cognitiva. Não é surpreendente que a tecnologia religiosa mais poderosa tenha recorrido a seus encantos. Ainda assim, há candidatos melhores para o enteógeno de Elêusis.
No século II d.C., o imperador Marco Aurélio foi iniciado nos Mistérios. Segundo relatos, ele foi o único leigo a ter permissão para entrar no Santo dos Santos dentro do templo principal. Como imperador, reconstruiu o templo depois que este foi quase destruído pelos bárbaros Kostovoks em 170 d.C. Seu busto repousa no pátio, com uma serpente estampada no peito.
Ésquilo, o pai da tragédia grega, também era um iniciado, e muitas de suas peças tratavam dos Mistérios. Em uma delas, parece ter voado perto demais do sol e quase foi executado por revelar demais. Considere a interpretação de Hillman.
“Antes que os antigos videntes evocassem espíritos como Allecto do submundo — uma prática arcana conhecida como necromancia —, invocavam Baco, o deus da dança extática. O culto a essa divindade dos cultos de mistério, conhecida na literatura e na arte clássicas por vários nomes, como Dioniso, Bromius e Zagreu, estava ligado ao manejo da víbora-cornuda europeia (Vipera ammodytes)… Parece que as sacerdotisas de Hécate, Príapo e Deméter/Perséfone estavam envolvidas no consumo de veneno de víbora. [Ésquilo quase foi executado por revelar os segredos dos mistérios de Elêusis em suas peças sobre Orestes. Uma dessas peças (Os Portadores de Libações) contém o sonho de uma “dragoa”, cujo leite materno é injetado com o veneno de uma serpente.]… Algumas delas são chamadas até mesmo de “dragoas” e estão envolvidas na “queima” da mortalidade humana.”
Citação direta, incluindo “[]”, do capítulo do livro Drugs, Suppositories, and Cult Worship in Antiquity
O dramaturgo Aristófanes também profanou os mistérios, o que Hillman relaciona ao veneno de serpente em outro artigo que discute as dragoas/drakaina:
“Dizia-se que a Drakaina, ou δρακαινα, obtinha seus poderes misturando/preparando drogas em forma potável ou consumível. Há numerosas Drakainai nomeadas, entre as mais famosas estando Clitemnestra. Aristófanes foi acusado de profanar (revelar) os Mistérios em sua trilogia sobre Orestes. Em suas Coéforas, Ésquilo registra que a Drakaina produziu e administrou uma mistura de sangue e leite depois de ser mordida no peito por uma serpente/dragão (514 e seguintes). Orestes chega a descrever sua própria “serpentificação”, ou transformação em Dragão. (Verso 549: ἐκδρακοντωθεὶς δ᾽ ἐγὼ, “eu mesmo também fiz surgir o dragão.”)
…
As sacerdotisas-dragão entravam em um estado extático ou báquico de mania, durante o qual afirmavam experimentar e influenciar forças transdimensionais ou “daimones” (demônios), manipulando “ondas” de distorções do espaço-tempo produzidas por “estrelas obscurecidas”. Os gregos usavam a palavra ἔνθεος [entheos, literalmente “deus interior”] para descrever esse estranho êxtase induzido pelas estrelas, e os místicos afirmavam que ele fazia parte de um processo de manifestação do “deus interior no peito” do iniciado.”
Esse foi o tema de sua dissertação. Ele afirma explicitamente que os Mistérios usavam veneno de serpente como enteógeno e fornece dezenas de referências primárias.18 Ainda assim, é bom contar com uma segunda opinião, desta vez sobre o oráculo de Delfos (onde a alta sacerdotisa era chamada de Pitonisa ):
“Os sioux acreditavam que, se um jovem dançarino fosse mordido por uma serpente e não morresse, experimentaria um despertar universal. (Desde a Antiguidade, considerava-se que a dança era uma mímese extática do místico, e ela ainda é vista como o meio pelo qual os mistérios são revelados.) O veneno de serpente era lambido para induzir transes em Delfos. Até mesmo alguns cientistas testemunham ter experimentado estados alterados após uma picada de serpente, vendo visões e sentindo capacidades extraordinárias.” Drake Stutesman, Snake, 2005
Voltaremos às danças de serpentes. Por enquanto, o fato de que os antigos gregos usavam veneno como enteógeno parece ser conhecimento corrente em pelo menos um subcampo dos estudos clássicos19. No mínimo, está bem documentado que vários templos abrigavam serpentes20. E, embora possa ser um rumor picante, Clemens, um filósofo pagão egípcio que se converteu ao cristianismo por volta de 200 d.C., escreveu que os Mistérios incluíam orgias de serpentes dedicadas a Eva.21 De todo modo, dado que os Mistérios remontam à pré-história, é prudente buscar nas civilizações irmãs evidências corroborantes de que o veneno de serpente era usado como enteógeno.
Na década de 1580, o mercador florentino Filippo Sassetti observou que as palavras em sânscrito para Deus, serpente (!) e alguns números soavam como seu italiano nativo. Assim começou a hipótese protoindo-europeia (PIE): a Índia e a Europa faziam parte do mesmo tronco cultural, compartilhando uma raiz profunda no passado. Nos séculos subsequentes, nenhum grupo pré-histórico foi objeto de maior interesse linguístico e arqueológico. Considera-se que os povos PIE tenham vivido há 6–9.000 anos em algum lugar próximo ao mar Negro. Seus descendentes espalharam-se por grande parte da Eurásia, levando consigo sua língua, religião e costumes. Hoje 46% da população mundial tem como língua nativa uma língua PIE.
Estabelecida a conexão, voltamo-nos da Grécia para a Índia a fim de triangular o uso do veneno entre os povos PIE. Ali, a poção da iluminação chama-se Soma e também possui associações míticas com serpentes e leite.
“As serpentes (frequentemente simbolizando as mulheres) realizam uma alquimia que as mulheres realizam ao transformar sangue em leite. No ritual da aldeia, dá-se leite a uma serpente; a serpente então o transforma em veneno, que por sua vez é tornado inofensivo por Soma (ou pelo xamã, que controla Soma, as drogas e as serpentes). Os iogues, o inverso das mães em termos de hidráulica dos fluidos, bebem veneno, que consideram Soma, e assim têm poder sobre as serpentes. Um iogue também pode beber veneno e transformá-lo em sêmen, e pode transformar seu próprio sêmen em Soma ao ativar a deusa serpente enrodilhada (venenosa?) Kundalini” Karma and Rebirth in Classical Indian Traditions, Wendy Doniger O’Flaherty, 1980, página 54.
Mais uma vez, o veneno de serpente e o leite são simbolicamente misturados à própria vida. Esse tema permeia a religião indiana. Depois de alcançar a iluminação, o Buda é protegido de uma tempestade pelo rei Naga. E a iluminação Naga não é uma religião morta. O Sadhguru, que bebe veneno, tem milhões de seguidores e uma predileção por ressuscitar rituais esotéricos envolvendo serpentes. Há muitos vídeos dele no YouTube discutindo o significado ritual em linguagem enteogênica perfeita. E, como Ésquilo, ele combina veneno de serpente com leite. Não creio que alguém tenha defendido uma tradição PIE de Soma de veneno de serpente, embora isso pareça estar bem documentado em ritos sagrados na Grécia e na Índia. (Ou, como discutiremos mais adiante, Soma poderia ter sido o antiveneno consumido antes do encontro com uma serpente.)
Mas minha afirmação não diz respeito aos povos protoindo-europeus. Diz respeito ao mundo. E não diz respeito à morte do ego na Grécia Antiga, mas às origens evolutivas do ego. Precisamos ir mais fundo.
Eurásia e as Américas #

Os Textos das Pirâmides estão entre os mais antigos textos religiosos escritos do mundo, remontando ao Império Antigo do Egito, por volta de 4,5 kya. Eles consistem em um vasto conjunto de fórmulas mágicas, orações e encantamentos inscritos nas paredes e nos sarcófagos das pirâmides de Sacará, destinados a proteger e orientar os faraós na vida após a morte. Os Textos das Pirâmides oferecem percepções inestimáveis sobre as crenças dos antigos egípcios a respeito do cosmos, da criação e dos deuses.
Como muitas outras tradições, os egípcios sustentavam que no princípio havia apenas o caos, frequentemente representado como um oceano. Anteriormente, fiz referência a uma tradição egípcia segundo a qual Atum emergiu do oceano ao pronunciar seu nome. Esta passagem reflete outra tradição, na qual o primeiro ser é Neheb-ka:
*“Eu sou o transbordamento da Inundação Primeva, aquele que emergiu das águas. Eu sou a serpente ‘Provedora de Atributos’, com suas muitas espiras. Eu sou o Escriba do Livro Divino, que diz o que foi e produz o que ainda há de ser.” ~*Texto das Pirâmides 1146, Egito, 2.500 a.C.
Neheb-ka é traduzido como “Provedor de Atributos”, embora também possa ser “Aquilo que dá o Ka” ou “Aquele que aproveita/atrela o Ka”, sendo Ka espírito, alma ou duplo. Portanto, aí está, esculpido em pedra: as almas eram originalmente atreladas por uma serpente. Por meio delas, o homem foi feito duplo. Ou, pelo menos, era isso que os egípcios pensavam.
A Figura 38 abaixo, extraída de Myth and Symbol in Ancient Egypt, de Robert Clark, mostra que essa ideia perdurou até o século XII a.C., durante o reinado de Ramsés VI, quando o Tempo e a Forma são representados emergindo da Serpente Cósmica. (Lembre-se de que a experiência do tempo resulta diretamente da recursão.)

No antigo Egito, a sabedoria e a percepção eram frequentemente simbolizadas ou até mesmo concedidas por serpentes. Por exemplo, Neheb-ka dá o Olho de Ra22 ao faraó:

Mas voltemos à questão em pauta: estabelecer uma raiz comum entre os mitos americanos e eurasiáticos sobre serpentes. Relações filogenéticas entre a Grécia e a Índia são esperadas, dado que ambas se originam da cultura PIE de 6–9 kya. Retroceder mais no tempo envolve muitas questões metodológicas. No entanto, os mitos sobre serpentes são uma rara exceção, em que filogenias muito maiores e mais profundas são aceitas. Como conciliar, por exemplo, a concepção egípcia, hebraica e PIE de serpentes que dão vida com a chinesa? Abaixo está a deusa criadora Nuwa com seu consorte Fuxi, entrelaçados como serpentes:

Na década de 1880, Miss A. W. Buckland observou as semelhanças entre o culto às serpentes em ambos os lados do estreito de Bering e argumentou que ele, juntamente com o culto solar, a agricultura, a tecelagem, a cerâmica e a metalurgia, se espalhou da Eurásia para o Novo Mundo com os primeiros colonizadores. Mais de cem anos depois, o mitólogo comparativo Michael Witzel ecoa as afirmações sobre as serpentes. Ele argumenta que uma cosmogonia da criação se desenvolveu na Eurásia entre 40–15 kya e depois se espalhou para o Novo Mundo. Baseando-se em culturas tradicionais da China, do Havaí, da Mesoamérica, do Egito, da Grécia, da Inglaterra, do Japão, da Pérsia e da Índia, ele propõe que o mito proto-criacional incluía a morte de um grande dragão, frequentemente com a ajuda de uma “bebida celestial”, como o Soma. Depois de concluir esse feito, os humanos receberam (ou roubaram) a cultura: “Somente depois que a terra foi fertilizada pelo sangue do Dragão é que ela pode sustentar a vida.”23
Seus métodos são comparativos; os mitos existentes são tão semelhantes no Japão, na Grécia e no México que devem compartilhar uma raiz ancestral. Para entender o que ele queria dizer, vejamos novamente exemplos pré-históricos, atentos ao uso enteogênico.
No Texas, por volta de 500 d.C., um homem comeu uma cascavel, presas, escamas e tudo. Sabemos disso porque arqueólogos encontraram e analisaram suas fezes (ou… coprólito). Isso é interpretado como parte de um ritual porque as pessoas normalmente não comem presas nem o chocalho. Além disso, as histórias da criação dessa região estão repletas de serpentes chifrudas ou emplumadas, uma tradição que parece remontar a milhares de anos, com base na arte rupestre. Por exemplo, veja a Caverna da Serpente na Baixa Califórnia, datada de 7,5 kya. Ela apresenta um mural de oito metros de comprimento:

A Bradshaw Foundation acrescenta: “Os motivos apresentados na arte rupestre do sítio estão associados a conceitos que remetem a mitos de criação; à morte e à renovação cíclica da vida e das estações. A figura central da serpente chifruda está presente em todo o continente americano e prevalece na cosmovisão de várias culturas nativas.” Aspectos sobreviveram por 7.000 anos até os tempos astecas:

Ou considere a arte rupestre encontrada no que hoje são Utah e Colorado. Este xamã-serpente no Platô do Colorado é datado24 de 5–9 kya:

Ou estes, de 1,5–4 kya, do San Rafael Swell, em Utah:


Ou esta, do painel de Buckhorn Wash, em Utah:

Certo, mais uma:

Psicodélico, não? A última imagem é particularmente interessante. Que maneira melhor de representar uma viagem induzida por veneno do que uma serpente espiralada de duas cabeças entrando em um labirinto? Os mesmos símbolos são comuns na Eurásia, onde o labirinto é há muito tempo utilizado como metáfora da descoberta interior. Aqui, por exemplo, adotado por um artista da Nova Era:

No Egito, Nehebkau, o Provedor de Duplos, é às vezes representado com duas cabeças. Mais uma vez, a partir de Clark:

Não estou necessariamente sugerindo uma relação filogenética entre labirintos ou serpentes de duas cabeças no Novo e no Velho Mundo. O emprego do veneno como enteógeno poderia fazer com que essas metáforas fossem naturalmente reinventadas. Sustento que a prática alucinógena que os produziu se disseminou junto com o culto original à serpente. Também vale observar que tal prática poderia evoluir à medida que enteógenos menos perigosos fossem descobertos (particularmente nas Américas), e a conexão com a serpente sobreviveria apenas na lenda. O peiote era utilizado em rituais já há 6 kya, por exemplo.
O artigo que analisou o coprólito do Texas foi publicado em 2019 e alegava ser o primeiro a discutir evidências arqueológicas da ingestão ritual de uma serpente venenosa. No ano seguinte, um artigo publicado na Nature analisou uma coleção de ossos de serpentes encontrados em uma caverna israelense, depositados entre 15–12 kya. Os autores não discutem o ritual, mas observam que as serpentes venenosas tinham maior probabilidade de ser ingeridas do que as não venenosas.
Esses comedores de serpentes do Oriente Próximo são natufianos, que formam um agrupamento genético com os egípcios muito posteriores. Trata-se de um grupo culturalmente importante que prenunciou a iminente Revolução Agrícola com suas próprias revoluções. A Revolução do amplo espectro (exploração de uma gama mais ampla de fontes alimentares, incluindo animais menores, como peixes, serpentes e coelhos) é considerada uma hipótese que teria permitido aos natufianos adotar um estilo de vida sedentário. Permanecer em um lugar, por sua vez, levou à agricultura.
O arqueólogo Jacques Cauvin argumenta que os primórdios da agricultura não foram tão prosaicos; eles marcaram uma mudança na consciência humana. Os natufianos e outros povos do Oriente Próximo vivenciaram uma “revolução dos símbolos”, uma mudança conceitual que permitiu aos seres humanos imaginar deuses — seres sobrenaturais semelhantes a humanos — que existiam em um universo para além do mundo físico. Vale enfatizar que, para Cauvin, trata-se de uma mudança cultural, não neurológica.
Suas ideias ganharam nova vida com a escavação de Göbekli Tepe, o templo mais antigo do mundo. Klaus Schmidt supervisionou a escavação por duas décadas e afirmou que o ponto central de Cauvin estava correto: a religião precedeu a agricultura25. A leitura da EToC é que a recursividade estava se tornando mais natural e, com ela, a dualidade e o pensamento sobre o futuro. A agricultura foi o resultado, em parte devido ao Culto da Serpente.
É difícil demonstrar o uso enteógeno do veneno há 11 mil anos. No entanto, um total de 28,4% dos animais esculpidos em Göbekli Tepe são serpentes, o dobro do segundo animal mais comumente representado, a raposa, com 14,8%. E isso considera grupos de animais como uma única ocorrência. As serpentes, que frequentemente são esculpidas em grupos, representam metade de todos os animais identificáveis se forem contabilizadas individualmente.
Às vezes, Göbekli Tepe é tratado como algo surgido do nada. Mas, sob a perspectiva do Culto da Serpente, ele se encaixa perfeitamente em uma filogenia bem aceita de serpentes utilizadas em rituais de morte e renascimento. Estatuetas de serpentes são um tema dominante em muitos sítios arqueológicos próximos a Göbekli Tepe, incluindo Körtik Tepe, que o precede em mil anos. Mais ao norte, em um sepultamento na Sibéria, um menino foi enterrado há 24 mil anos, no auge da Era do Gelo. Em seu sepultamento, encontramos marfim de mamute esculpido com serpentes que se parecem com najas. Najas (ou quaisquer serpentes?) não viviam em um clima tão gélido. É provável que fossem deuses estrangeiros que haviam viajado com essas pessoas. Evidentemente, elas possuíam um poder simbólico duradouro. (De modo semelhante, essa cultura esculpiu muitas Estátuas de Vênus, que eram comuns na Europa na mesma época.)
De volta à terra natal de Vênus, realizavam rituais com serpentes decapitadas já há 17 mil anos. Dois esqueletos de serpentes decapitadas foram encontrados em uma caverna dos Pireneus decorada com bisões sem cabeça. Imagine como seria entrar naquela caverna à luz do fogo depois de dias de jejum. Para um iniciado, ficaria abundantemente claro que ele estava prestes a perder a cabeça. O link acima leva a um especialista em indo-europeu que descreve isso como evidência do primeiro ritual de dragão da Europa.
Por fim, embora sejam as figuras que atraem a atenção, a maior parte da arte rupestre consiste em símbolos abstratos. Há cerca de 20 símbolos encontrados na arte rupestre de todo o mundo. Acredita-se que sejam uma forma de protoescrita cujo significado permaneceu consistente ao longo do tempo. Desses, serpentes e aves são as únicas duas formas animais, sendo que a forma serpentiforme aparece pela primeira vez há 30 mil anos. As serpentes de Göbekli Tepe não surgem simplesmente do nada. Elas fazem parte de um patrimônio cultural profundo e amplamente compartilhado, lembrado do Egito à China e ao México.
Muitos estudiosos, como Buckland, Witzel, d’Huy e White, consideram que os mitos sobre serpentes nas Américas e na Eurásia provêm da mesma raiz, profundamente arraigada no passado. Separadamente, outros defendem que o veneno de serpente foi usado como enteógeno na Grécia e na Índia (e, tentativamente, na América). Sugiro combinar essas ideias: as serpentes estão associadas à criação porque seu veneno serviu como enteógeno na religião original da Eurásia, que se difundiu pelas Américas. Estabelecer o veneno como o Soma primordial é um objetivo digno. Mas, para que esta seja uma história humana, o mundo inteiro deve ser reunido no Culto.
Em todo o mundo #

Tudo o que foi discutido até aqui exige uma filogenia de cerca de 30 mil anos, com raízes na Eurásia. Um culto da serpente poderia ter se desenvolvido ali e se espalhado para as Américas com a cultura Clóvis há cerca de 13 mil anos. (É nesse período que arte e ferramentas de pedra sofisticadas são atestadas pela primeira vez, apesar de as Américas serem habitadas há pelo menos 23 mil anos e, talvez, muito antes.)26 Isso abrange a maior parte do mundo, mas ainda restam as regiões problemáticas da África subsaariana e da Austrália. Elas são frequentemente tratadas como ilhas culturais e, no entanto, surpreendentemente, possuem mitos semelhantes sobre serpentes e criação. Quando Witzel escreveu Origins of Mythology, partiu em busca de uma raiz global para os mitos da criação. Isso o colocou em uma situação difícil. Se postula uma raiz de cerca de 30 mil anos, deve afirmar que o fundamento das culturas australiana e africana foi importado da Eurásia. Isso obviamente não é muito popular entre os ativistas aborígenes, para os quais “50.000 anos de cultura contínua” é um grito de mobilização. Mas as cosmogonias do mundo são realmente muito semelhantes. O que fazer? Assim como os antropólogos que projetam a arte e o casamento para 300 mil anos atrás, a solução de Witzel é postular uma raiz verdadeiramente antiga na África. Neste caso, de 100–160 mil anos27. Não creio que isso se sustente. Cem mil anos é muito tempo para uma história perdurar. Esperamos reconhecer um mito depois de 100 mil anos de telefone sem fio? Isso está plenamente inserido nas escalas de tempo evolutivas, segundo qualquer avaliação; não está claro se os seres humanos de 100 mil anos atrás tinham almas, muito menos uma explicação para elas. Além disso, não é difícil acreditar que australianos e africanos, como outros seres humanos, tenham participado de intercâmbios culturais nos últimos 30 mil anos. A cultura pode se disseminar! Ela se dissemina hoje. Temos de lembrar que, em algum momento do passado, algumas tribos tinham histórias da criação, pronomes e rituais, enquanto outras não. A primeira boa explicação para a consciência teria sido particularmente propensa a se disseminar porque não estava deslocando os mitos nativos da criação. Ela estava preenchendo uma lacuna. Se tudo isso não for suficiente, podemos recorrer ao mito da criação dos bosquímanos san, que implica difusão.
Os bosquímanos da África do Sul falam de um criador, Cagn, que “fez todas as coisas aparecerem e serem feitas” (Orpen 1874, 3).
“Cagn nos deu a canção desta dança e nos disse que a dançássemos, e as pessoas morreriam por causa dela, e ele lhes daria amuletos para fazê-las ressuscitar. É uma dança circular de homens e mulheres, seguindo uns aos outros, e é dançada durante toda a noite. Alguns caem; alguns ficam como se estivessem loucos e doentes; o sangue escorre do nariz de outros cujos amuletos são fracos, e eles comem remédio mágico, no qual há pó de serpente queimado.” ~Qing, um homem san do Drakensberg, entrevistado em 1873 por Joseph Orpen
A dança de transe é o centro da vida ritual san. Ao que parece, ela foi estabelecida quando alguém apareceu, deu-lhes pó de serpente triturado e disse que começassem a dançar. Uma dança de transe envolvendo serpentes lembra as Danças da Serpente encontradas por todas as Américas. (A dos hopis é descrita na nota de rodapé28.) Assim como nas Américas, a arte rupestre san oferece um vislumbre do papel das serpentes na vida religiosa milhares de anos atrás.

O Historical Atlas of World Mythology, de Joseph Campbell, traz a seguinte legenda para esta imagem: “Pintura rupestre no clássico estilo rodesiano de cunha, mostrando uma cena de sacrifício humano (abaixo) com uma deusa entre as nuvens (acima). Mensageiros espirituais se reúnem e sobem por uma escada celestial, que se rompe em um clarão de relâmpago transformado em uma serpente da chuva. Distrito de Marandelles, Rodésia do Sul”
Joseph Campbell descreve esta imagem como uma cena de sacrifício humano (abaixo), com uma deusa entre as nuvens (acima). A leitura da EToC é que Ela e a Serpente Cósmica estão facilitando a morte e o renascimento.
Uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Isso teria sido duplamente verdadeiro para os primeiros magos. Imagine introduzir a tecnologia psicossocial da religião a tribos pré-religiosas (e potencialmente pré-recursivas). Se os primeiros xamãs chegassem oferecendo psicodélicos, seriam lembrados como semideuses.29
É claro que “professor visitante” não é o único modo de contato cultural. A maneira como a religião se difundiu pela primeira vez toca o cerne do que significa ser humano. Havia missionários pacíficos da consciência? A primeira tribo xamânica conquistou o mundo à ponta da lança? Ou os ritos foram assimilados transacionalmente por meio de redes comerciais? Conhecendo os seres humanos, provavelmente houve um pouco de cada coisa. No entanto, Cagn soa como um missionário. Assim como a Grande Deusa do Dreamtime.
![Arte rupestre australiana que apresenta um estilo “de raios X”, no qual o esqueleto ou os órgãos de uma figura são representados. A Deusa Mãe aqui pintada tem seguidores da Nova Era. Um [site pagão] fornece esta legenda: *Aquela Que, com Sua Irmã Djunkgao (e, às vezes, incluindo seu irmão), era conhecida como as Djanggawul; Deusa Dupla da fertilidade e da procriação; Filhas do sol; as Mães; Aquelas Que deram à luz os povos aborígenes australianos; Aquelas Que, no Dreamtime, vieram de Bralgu, a ilha lar dos mortos, seguindo o caminho da estrela da manhã; Aquelas Que, tendo chegado ao Lugar do Sol, viajam em direção ao sol poente, produzindo incessantemente plantas, animais e crianças humanas a partir de seus corpos eternamente grávidos; Aquelas Que forneceram a Seus filhos cerimônias sagradas para a vida e as necessidades da existência; Aquelas Que criaram nascentes de água e árvores onde quer que fincassem no solo seus emblemas rangga; Aquelas dos genitais alongados. Originalmente, toda a vida religiosa estava sob o controle das Irmãs, até ser roubada delas por seu irmão, que também encurtou seus genitais.*](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_bJq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff54b4e74-e34a-4150-bb74-c8311d974538_626x588.jpeg)
A Austrália tem muitas histórias da criação, mas a chegada de uma Grande Deusa é um tema comum.30 No norte da Austrália, conta-se a história das Irmãs Djanggawul, que vieram de uma ilha mítica a leste, em canoas. Em outras versões, “Nossa Mãe” também é uma Serpente Arco-Íris que engole os homens. Ela trouxe a linguagem, os ritos de iniciação, a arte e a lei. Uma mudança tão profunda deixaria vestígios; portanto, consideremos as evidências físicas.
A Serpente Arco-Íris é venerada em toda a Austrália, de modo que faz sentido pensar que deve ser uma tradição verdadeiramente antiga, remontando aos primeiros seres humanos que chegaram ali. No entanto, a Serpente Arco-Íris mais antiga documentada é datada de 6 kya, com um possível caso discrepante de 10 kya. Isso é muito posterior aos primeiros seres humanos documentados na Austrália, entre 50 e 65 kya. Dado que há uma filogenia da veneração das serpentes aceita no restante do mundo, é plausível que a Serpente Arco-Íris tenha sido trazida da Eurásia para a Austrália.
Há muitos outros exemplos de difusão semelhante. O dingo, por exemplo, foi indiscutivelmente trazido por seres humanos. Durante muito tempo, pensou-se que isso tivesse ocorrido entre 4 e 8 kya, mas as evidências mais recentes indicam que ocorreu apenas 3 kya. Portanto, teria sido uma onda diferente daquela proposta para o Culto da Serpente, mas isso prova a possibilidade. Além disso, vários estilos icônicos de arte rupestre australiana surgem entre 6 e 9 kya. Como no exemplo acima, eles frequentemente representam espíritos civilizadores em um estilo “de raios X”. Até mesmo Witzel, que argumenta que a religião australiana tem 160.000 anos e foi trazida pelos primeiros seres humanos ao continente, há 65 kya, admite que o estilo de raios X é uma importação do Holoceno. A esses exemplos, Joseph Campbell acrescenta “lançadores de lanças, bumerangues e escudos, lascamento fino por pressão, pontas unifaciais e bifaciais, micrólitos e lâminas.” Ele observa: “Não pode haver dúvida de que toda essa nova indústria havia chegado de outro lugar, provavelmente da Índia.” Com base nisso, Campbell afirma que a religião australiana derivou da religião eurasiática.31
Por fim, há um fluxo genético debatido proveniente da Índia por volta de 4 kya. Aparentemente, também houve intercâmbio genético e cultural com a Papua-Nova Guiné quando ela formava uma única massa terrestre com a Austrália, 8.000 anos atrás. Os aborígenes australianos reconhecem universalmente a Serpente Arco-Íris. Se esse fosse o caso 20.000 anos atrás, é estranho que a tradição atualmente não se estenda à Papua-Nova Guiné.32 Assim, é plausível que a Serpente Arco-Íris esteja na Austrália apenas há menos de 10.000 anos e faça parte da tradição eurasiática dos cultos da serpente. Na verdade, é isso que indica a Navalha de Occam. Muitos outros elementos culturais chegaram à Austrália nos últimos 10.000 anos; por que não as Serpentes Arco-Íris? Recorde-se que Moore e Brumm argumentaram contra o conceito de Modernidade Comportamental, observando que ela só é encontrada na Austrália a partir de 7 kya.
Há outras explicações. Tanto d’Huy quanto Witzel sustentam que os mitos australianos são semelhantes aos do restante do mundo por terem uma raiz comum de mais de 100 kya. Mas, como assinalo em Contra d’Huy, isso deixa 90.000 anos sem nenhuma evidência de que a linhagem australiana venerasse serpentes. E deixa 60.000 anos sem qualquer sinal de xamanismo em lugar algum do mundo, muito menos de xamanismo ofídico. O que mais me deixa perplexo é que essa explicação exige acreditar que informações podem ser preservadas em mitos por 100.000 anos, mas que não existe memória cultural da introdução da arte no estilo de raios X, dos dingos e de ferramentas de pedra mais sofisticadas nos últimos 10.000 anos. Isso mesmo quando a narrativa do Dreamtime afirma que a arte, a religião e a tecnologia foram trazidas aos australianos por pessoas que chegaram em canoas vindas de uma ilha a leste do norte da Austrália. A Papua-Nova Guiné está logo ali, acessível por canoa. Olhando para além da Austrália, a arte, os calendários e a religião têm apenas 40.000 anos. Se as histórias podem durar 100.000 anos, então certamente teríamos algumas sobre as Estatuetas de Vênus, um objeto religioso valorizado produzido durante dezenas de milhares de anos. Minha teoria é que as temos em Eva, Deméter e nas Irmãs Djanggawul. À parte as sensibilidades políticas, que razão há para recuar a veneração das serpentes em 100.000 anos? Para afirmar uma transmissão tão longa e precisa, cabe a esses paleo-difusionistas mostrar um único fragmento de evidência de veneração das serpentes 60.000 anos antes da primeira arte.
Espero ter demonstrado que a veneração das serpentes em todo o mundo é plausivelmente uma tradição conectada que remonta a pelo menos 30.000 anos. Em comparação com outros pesquisadores, esta é uma afirmação conservadora. Também sustento que as serpentes conservaram tamanho poder simbólico por causa da utilidade do veneno como enteógeno. Se isso for verdade, seria de esperar que os antivenenos também fizessem parte da tradição.
Antivenenos #

Vishnu, o preservador, desliza pelo oceano cósmico, repousando sobre um leito de nagas. Nesse estado, Vishnu sonha o universo para que ele se torne realidade. É de seu umbigo que brota um lótus, dando nascimento a Brahma, o criador, que produz o mundo.
No estudo de caso citado anteriormente, um homem indiano procurou um encantador de serpentes local para obter sua dose de veneno. Este era aplicado diretamente, da presa à língua. Minha suposição é que nossos ancestrais tomavam algumas precauções e ingeriam grandes quantidades de antivenenos como preparação para combater a serpente. Isso também poderia ter sido preservado na mitologia. De fato, uma das primeiras coisas que notei em minha pesquisa foi a frequência com que serpentes mitológicas aparecem ao lado de possíveis antivenenos. No cânone PIE, por exemplo, tomar um trago antes de lutar contra uma serpente é um comum tema. Indra bebe Soma para se preparar para a batalha contra a serpente Vritra, que ocupa o mesmo papel que Jörmungandr na mitologia nórdica, Tifão na mitologia grega e Veles na mitologia eslava.
Na história mais conhecida do mundo, uma serpente tenta Eva a comer uma maçã, que é uma fonte rica de rutina, um antiveneno funcional. É certo que a própria Bíblia não menciona maçãs. No entanto, os gregos o fazem em várias ocasiões. Antes de descer ao submundo para lutar contra o Cérbero de cauda serpentina, Héracles deve buscar no jardim de Hera uma maçã que concede a imortalidade, guardada por um dragão. Além disso, ele se prepara para o Hades ao receber os Mistérios Eleusinos, que, entre outras coisas, celebram a morte e o renascimento de Dioniso. Dioniso foi atraído à sua morte pelas mãos dos Titãs, que lhe mostraram uma serpente, um espelho, um bullroarer (um instrumento sagrado ao qual voltaremos) e uma maçã. Ele é frequentemente representado segurando um cetro de funcho, outra boa fonte de rutina. Assim como sua bebida sacramental, o vinho.
A rutina também é encontrada na flor de lótus, um símbolo da criação no Egito, e é segurada por Vishnu sobre seu leito de Nagas acima. Sadhguru consagrou o templo de Naga lavando as estátuas de serpentes com cúrcuma, um antiveneno (1,2,3,4). A árvore sob a qual o Buda se sentou, envolta por um Naga,é um antiveneno (1,2,3).
Uma das primeiras coisas que os seres humanos fizeram após inventarem a escrita foi registrar antivenenos ofídicos. Tanto na Acádia quanto no Egito, tratava-se de cerveja misturada a várias ervas. Foram encontradas mais de 10.000 pedras de moagem em Göbekli Tepe, juntamente com trigo einkorn, que era usado para fabricar cerveja. Neste texto, discuto como a cerveja de einkorn é particularmente eficaz como antiveneno. Em Göbekli Tepe, há recipientes capazes de armazenar até 200 litros de líquido.
O Smithsonian relata uma história que lembra os Mistérios Eleusinos, Soma e Sadhguru. Um herpetólogo no Congo foi atingido no rosto pelo cuspe de uma serpente. Em uma situação difícil, recorreu à medicina tradicional e encontrou uma mãe lactante para lavar seus olhos com leite. Isso é relatado como eficaz.
As serpentes frequentemente aparecem ao lado de antivenenos funcionais em mitos sobre a morte, o renascimento e a consciência. Isso faz muito sentido se seu veneno tiver sido ritualizado como um enteógeno. O objeto da primeira religião não teria sido a morte literal.
Interlúdio etimológico #
As associações vocabulares, assim como os mitos, podem perdurar por muito tempo. Alguns linguistas sustentam que é possível até mesmo reconstruir a língua original. Bengtson e Ruhlen propuseram algumas dezenas de cognatos globais. Assim, em Proto-Sapiens, “pensar” é mena, sobrevivendo hoje em formas como man (aquele que pensa), Minerva (deusa da sabedoria) ou mantra. Ou, em outras línguas, como munak, “cérebro” (basco), mèn, “compreender” (malinkê), e mena, preservado como “pensar” entre os nativos americanos Lake Miwok. É uma noção romântica a ideia de que a cultura moderna está impregnada da Língua Materna, de que as palavras dos primeiros seres humanos ainda fluem de nossos lábios. A meu ver, esta pesquisa sofre do mesmo problema que a mitologia comparada: presume-se que tudo o que é global remonta a 100+ kya. Se essa for a cronologia, então essas semelhanças devem ser coincidência. É tempo demais para que um cognato perdure, e não há muitas evidências de pensamento em 100 kya.
Meu objetivo nesta seção é mais limitado; a etimologia das palavras relativas às serpentes pode nos dizer quais conceitos eram associados às serpentes ~10 kya. Começando por dragão, ele deriva de PIE *derk- “ver”. Da mesma forma, Lúcifer, a serpente que tentou Eva, literalmente significa “portador da luz”. Nome estranho para o diabo, não?
Zmeya é o substantivo feminino russo que significa serpente. Esta palavra deriva do PIE *dʰéǵʰōm, que significa “terra” ou “humano”. O latim Homo — como em Homo Sapiens — tem a mesma raiz. Curiosamente, “Adão” tem uma etimologia paralela em hebraico, significando ou “terra” ou “humano”, literalmente “(aquele formado a partir do) solo”. Se as serpentes estiveram envolvidas nesse processo, talvez a mesma etimologia também tenha se fixado nelas.
“Eva” provém do nome hebraico Chawwah, que deriva de chawah, “respirar”, ou de chayah, “viver”. Não surpreendentemente, há também conexões com “serpente”, que é hivei em aramaico. Citando o especialista em hebraico Robert Alter:
“Foi proposto que *o nome de Eva oculta origens muito diferentes, pois soa suspeitosamente semelhante à palavra aramaica para ‘serpente’. Será que ela recebeu esse nome por contiguidade contagiosa com seu interlocutor astuto ou, ao contrário, poderia estar à espreita por trás do nome uma avaliação muito diferente da serpente como criatura associada às origens da vida?” ~*The Five Books of Moses, 2004, comentário oem Gênesis iii.20
Para maior profundidade e outra perspectiva, consulte a dissertação de mestrado de Wendy Golding33.
A raiz semítica nhš significa tanto serpente quanto adivinhação, conotando especificamente uma oferenda de libação — uma bebida dedicada a uma divindade34. Recorde-se de que “Em As Coéforas, Ésquilo registra que a Drakaina produziu e administrou uma mistura de sangue e leite depois de ser mordida no peito por uma serpente/dragão.” O classicista Hillman argumenta que essa representação foi o que resultou no julgamento de Ésquilo por profanar os mistérios. Tanto na tradição grega quanto na hebraica, as serpentes estão associadas às libações. Isso sugere que seu veneno era uma bebida sagrada no passado remoto.
Outras pesquisas sobre serpentes #
“O culto às serpentes caiu, infelizmente, há anos nas mãos de escritores especulativos, que o misturaram a filosofias ocultistas, mistérios druídicos e àquela portentosa tolice chamada ‘Simbolismo Arquítico’, de modo que hoje os estudiosos circunspectos ouvem o próprio nome da ofiolatria com um estremecimento. No entanto, ele é, em si mesmo, um objeto de investigação racional e instrutivo, especialmente notável por sua amplitude na mitologia e na religião.” Edward B. Tylor, 1871
Desde os primórdios da antropologia, compreendia-se que as serpentes eram utilizadas na mitologia ao redor do mundo para representar a dualidade, a subjetividade e a criação dos seres humanos. Já em 1888, C. Staniland Wake observava que os astecas, incas, citas, Zohak, abissínios e chineses afirmavam ter surgido da união de uma Primeira Mãe com uma serpente (frequentemente associada ao sol). Um século mais tarde, os antropólogos ainda reiteravam a mesma ideia (embora com uma terminologia atualizada). Os filhos da serpente: semiótica da gênese cultural no mito arauaque e trobriandês começa com uma discussão sobre como egípcios, hebreus e gregos se viam como filhos da serpente, antes de explorar o tema na Amazônia (aruaque) e na Papua-Nova Guiné (Trobriand).
Muitos buscaram explicar o fenômeno. Em termos de vendas, o mais bem-sucedido é o antropólogo Jeremy Narby. Ele vivia com uma tribo na Amazônia, estudando o xamanismo. O xamã anfitrião disse que haviam obtido a receita da ayahuasca da grande serpente. Durante uma experiência com ayahuasca, Narby encontrou a serpente cósmica. Em seguida, leu mitos de criação ao redor do mundo e concluiu que a serpente era real e havia concedido ao xamã o conhecimento molecular das plantas. Não é coincidência que o DNA se pareça com uma serpente de dupla hélice, argumentou ele, o que inspirou a capa de seu livro:

Este livro tem uma avaliação de 4,7 na Amazon, com 2.200 avaliações. “As serpentes são reais” é uma indústria pujante, com títulos como:
- The secret history of the reptilians: the pervasive presence of the serpent in human history, religion, and alien mythos
- Return of the Serpents of Wisdom
- The Reptilian Alien Origins of the Human Species
- The Legacy and Universal Principle of the Plumed Serpent
- The Gods Of Eden: The Chilling Truth About Extraterrestrial Infiltration And Conspiracy To Keep Humankind In Chains
- Proving the Temptation and Fall of Man by the Instrumentality of a Serpent Tempter
- Aliens in ancient Egypt : the Brotherhood of the Serpent and the secrets of the Nile civilization
- Secrets Of The Serpent: In Search Of The Sacred Past
- The Serpent Grail: The Truth Behind the Holy Grail, the Philosopher’s Stone and the Elixir of Life
- Serpent of Light: Beyond 2012
No âmbito mais sóbrio da mitologia comparada, a explicação dominante é que os mitos sobre serpentes não se baseiam em nada em particular, mas formam, sim, uma filogenia. Witzel, como discutido, propõe cerca de 40.000 anos para as narrativas sobre serpentes fora da África e da Austrália. Para uma raiz global das cosmogonias, propõe 100–160 kya e cita o xamanismo serpentino entre os san, na África, e os aborígenes, na Austrália, como evidência de que a raiz precede a migração para fora da África. De modo semelhante, d’Huy propõe 100.000 anos para uma raiz global dos mitos sobre serpentes. Gênesis é tanto um mito sobre serpentes quanto uma cosmogonia; Witzel e d’Huy afirmam que ele conserva elementos significativos de narrativas contadas há mais de 100 kya. Essas cronologias são tão fantásticas quanto a ideia de que as serpentes seriam antigos alienígenas. O racionalista Tyler Cowen estima em ~10% a probabilidade de contato alienígena; que probabilidade você daria à hipótese de Gênesis ter 100.000 anos?
Para que um mito perdure por milhares de anos, ele precisa ter ganchos sociais ou psicológicos. A explicação mais comum, oferecida por leigos, é que as serpentes são uma metáfora da vida e do renascimento porque trocam de pele. Isso costuma ser seguido pelo argumento de que estão associadas ao submundo porque rastejam sobre o ventre, próximas ao chão. Apostaria que esse é o tipo de metáfora que funciona numa aula de inglês, mas não num culto do crânio (como Göbekli Tepe, o primeiro templo das serpentes). Além disso, o uso enteogênico torna essa explicação desnecessária. Cogumelos de psilocibina também ficam próximos ao chão, mas estão tematicamente relacionados ao mundo espiritual porque cinco gramas podem enviá-lo a outra dimensão.
As serpentes têm sido favoritas dos psicólogos junguianos, que não necessariamente procuram uma razão para a existência de um gancho psicológico. Para eles, o registro mítico já constitui evidência suficiente de que a psique humana possui um módulo que conecta as serpentes à consciência. Os biólogos são menos propensos a aceitar isso e propuseram várias versões da hipótese da detecção de serpentes. Essa hipótese sustenta que as serpentes foram nossos principais predadores durante milhares de anos e, por isso, ocupam um espaço desproporcional em nosso subconsciente. Assim como vemos rostos nas nuvens, vemos serpentes nas histórias (e, portanto, tendemos a repetir narrativas sobre dragões). Isso pode explicar por que há tantos mitos sobre serpentes, mas não aborda o papel que elas desempenham. As serpentes não distribuem a morte primordialmente. A serpente do jardim matou Eva, mas apenas do mesmo modo que sua mãe, que o condenou à morte no dia em que você nasceu. As serpentes dizem respeito à criação; a destruição é secundária. Além disso, por que as serpentes são mais comuns nas religiões mais primitivas? Cristo na cruz simboliza uma serpente. Mas você poderia passar a vida inteira como cristão sem saber disso. Se o simbolismo da serpente está inscrito em nossos cérebros, por que é usado tão infrequentemente pelas religiões modernas? E por que os filmes de terror não são dominados por serpentes? A predação não consegue explicar a função simbólica consistente das serpentes.
Há também trabalhos que se aproximam do meu. Hillman publicou vários artigos defendendo que os gregos usavam veneno de serpente como enteógeno, mas não ampliou essa visão para o restante do mundo (ou sequer para o PIE, até onde sei). Sadhguru também descreve o veneno de serpente como um enteógeno, mas sua explicação para a prevalência delas é a mais próxima da de Jeremy Narby. Ele diz que as serpentes compreendem os mistérios do universo; os nagas existem como espíritos e são contatados de forma independente pelos xamãs de cada cultura. O linguista Daniele Cocice escreve em seu blog que uma batalha com uma serpente poderia ter produzido o protoindo-europeu “eu sou”.35
Talvez o trabalho mais próximo seja o do antropólogo Chris Knight, que afirma que a filogenia global dos mitos sobre serpentes é uma memória da época em que as mulheres criaram a cultura pela primeira vez. Ele observa que esse teria sido o início da subjetividade. No entanto, como marxista dedicado, isso não era interessante o bastante por si só. Em vez disso, o livro que escreve pretende mostrar que a cultura foi inventada por mulheres que se uniram para negar sexo aos homens, provando que uma revolução comunista é viável. Não estou inventando isso!36
Não conheço nenhum outro assunto sobre o qual pessoas de tantos espectros ideológicos concordem. Durante séculos, poetas, teóricos da conspiração, revivalistas druídicos, entusiastas arianos, apologistas cristãos, marxistas e antropólogos de todas as tendências afirmaram que o significado cultural do simbolismo da serpente tem a ver com a consciência. Durante milênios, religiosos de todos os tipos — judeus, animistas, politeístas e canibais — disseram o mesmo. As serpentes fazem parte do ar simbólico que respiramos, por isso é difícil pensar em seu significado original em termos químicos. Para sair desse impasse, é útil imaginar um mundo em que a serpente do jardim fosse mais evidentemente um enteógeno.
Um breve desvio ao universo alternativo explorado pelo psiconauta Terrence McKenna #
Imagine se, em todas as partes do mundo, se dissesse que os cogumelos eram os progenitores da condição humana. Quetzalcóatl, o Fungo Emplumado, colocou uma alma no primeiro casal. Indra obteve o Néctar da Imortalidade ao revolver o oceano de leite com um bastão de shitake. Mãe Micélia ofereceu a Eva o autoconhecimento. Os rituais mais sagrados da Austrália foram estabelecidos pela Trufa Cósmica, cujos esporos se tornaram as Plêiades. Os primeiros poetas gregos entraram em conflito com um antigo culto mistérico ao revelar a psilocibina como seu enteógeno de escolha. Os textos das pirâmides representam o Espaço e o Tempo emanando do Chapéu Eterno, o ligador das almas. A raiz etimológica de “fungo” é humano, vida ou sacramento em meia dúzia de línguas. Em todos os continentes, a arte rupestre continha variações de:

Esta peça foi recuperada com a ajuda do MidJourney v6.0 de uma caverna no Brasil, 11 kya. Preze-a, pois desafiar as leis da física é algo perigoso. Muitos homens morreram para capturar esta imagem nas profundezas do Cáucaso, 30 kya:

Mais uma, das Ilhas Andamão, 6 kya:

Se não ficou claro, estas imagens foram geradas por IA. Nessa linha temporal imaginada, não seria absurdo dizer que cogumelos psicodélicos eram usados no Xamanismo v1.0. A afirmação que eu gostaria de transformar em meme e inserir no tecido cultural é que vivemos nesse mundo, mas o alucinógeno eram as serpentes. Seu veneno funciona como um enteógeno, é usado como enteógeno, e as histórias mais antigas de todas as culturas conectam as serpentes à consciência. É também um dos poucos enteógenos que literalmente vêm até você. A primeira dose não teria sido voluntária; as serpentes insistem de uma maneira que os cogumelos não fazem.
Ao introduzir os Mistérios Eleusinos, citei Píndaro insinuando que o fim é como o começo: “Abençoado é aquele que, depois de contemplar isto, entra no caminho sob a terra: ele conhece o fim da vida e seu começo, concedidos por Zeus!” O classicista Károly Kerényi acrescenta, “‘Fim’ e ‘começo’ são palavras aparentemente desprovidas de cor. Mas elas lembravam aos iniciados uma visão na qual os dois estavam unidos.” A EToC sustenta que isso é literalmente verdadeiro. Os Mistérios preservaram ritos psicodélicos com veneno de serpente do Paleolítico, quando a psique humana ainda estava se formando. Esses ritos não eram uma parte incidental da cultura. Aqueles que conseguiam aprender a sapiência realizavam seu potencial e, entre outras coisas, tinham mais filhos. Isso alterou o panorama adaptativo. Em Elêusis, era possível vivenciar a morte do ego da mesma maneira que Adão vivenciou o nascimento do ego.
Até aqui, usei 30.000 anos, pois essa é a evidência mais antiga do mito da serpente. O Xamanismo e as Sete Irmãs aparecem pela primeira vez a partir de aproximadamente então, corroborando esse período. Ou talvez as histórias sejam muito mais antigas, mas as evidências tenham sido simplesmente destruídas. De qualquer modo, os últimos cerca de 40.000 anos são comumente tratados como o período em que os humanos se autodomesticaram. Em outras palavras, um mito de 30.000 anos existe em escalas temporais evolutivas. A psicologia humana poderia ter sido diferente quando essas histórias foram contadas pela primeira vez. Se houve uma reconfiguração do cérebro ao longo desse período, o veneno de serpente é uma droga quase perfeita para ajudar aqueles no limiar a realizarem plenamente suas capacidades cognitivas. Ele proporciona uma experiência enteógena e, em seguida, prepara o indivíduo para desenvolver novas conexões. Além disso, as serpentes literalmente vêm até nós, portanto faz sentido que seu veneno fosse usado como um enteógeno primordial. A primeira Eva talvez não tenha tido escolha.
A EToC postula que a autodomesticação dizia respeito principalmente à dualidade, à descoberta do domínio simbólico interior e à construção do símbolo recursivo “Eu”. Muito disso depende de ter havido realmente uma serpente no Éden (ou na Austrália ou na Ibéria), tentando Eva com o conhecimento dos deuses. Uma maneira de testar isso é examinar outros detalhes improváveis da história. A saber, que Eva era autoconsciente antes de Adão. Por que isso foi reconhecido em um texto tão patriarcal? Isso se ajusta à teoria da evolução? Há evidências na arqueologia e nas cosmogonias fora do Oriente Próximo?

Em resumo, as evidências de que o veneno de serpente era o Soma primordial:
- Sociedades de todo o mundo associam as serpentes à criação dos seres humanos e ao início da cultura.
- Os efeitos agudos do veneno de serpente são descritos como os de outros enteógenos: abandonar o vício, separar o corpo e a mente e vivenciar a morte do ego. Atualmente, ele é usado como enteógeno na Índia. Há evidências literárias e circunstanciais de que era usado nos Mistérios Eleusinos.
- O veneno contém Fator de Crescimento Neural, que poderia ajudar a reconfigurar o cérebro.
- Evidências arqueológicas de que serpentes peçonhentas eram comidas ritualmente milhares de anos atrás no Texas.
- Uma filogenia de 30.000 anos dos mitos sobre serpentes é aceita por vários mitólogos comparatistas, o que se aproxima do início da Modernidade Comportamental.
O Matriarcado Primordial #

“Depois do dia de descanso, Sophia enviou Zoe, sua filha, que é chamada Eva, como instrutora para erguer Adão, no qual não havia alma, para que aqueles que ele produzisse pudessem tornar-se recipientes da luz. Quando Eva viu seu parceiro masculino caído, teve compaixão dele e disse: ‘Adão, vive! Levanta-te sobre a terra!’ Imediatamente, sua palavra tornou-se um ato consumado. Pois, quando Adão se levantou, abriu imediatamente os olhos. Ao vê-la, disse: ‘Serás chamada mãe dos vivos, porque és aquela que me deu a vida.’ Sobre a Origem do Mundo, texto gnóstico da biblioteca de Nag Hammadi escrito no século III d.C.
O Gênesis foi escrito por um homem que ansiava pelo útero de sua mãe. Mulheres, serpentes e qualquer outra coisa que tivesse concedido consciência estavam em sua lista negra. O autor gnóstico citado acima se aproxima mais da verdade, reconhecendo o amor puro expresso por Eva ao elevar Adão. A Biblioteca de Nag Hammadi é uma coleção de textos cristãos coptas escritos nos séculos II–IV, mas descobertos apenas em 1945. A passagem sobre Sophia preserva (ou pelo menos ecoa) tradições do Egito que precedem o Antigo Reino (2.500 a.C.), no qual a Grande Mãe era a primeira entidade consciente.37 Assim como no caso das serpentes que precipitaram o primeiro “Eu sou”, é possível defender que a Mulher era autoconsciente antes do Homem sem recorrer a textos religiosos.
Todos os seres humanos sobrevivem dependendo dos outros, mas as mulheres, em particular. Consideremos o período da gravidez e da amamentação. É preciso obter mais alimento em um momento em que ela está menos apta a fazê-lo. A comunidade a ajuda, e essas relações precisam ser administradas com palavras e habilidades sociais. Isso exerce pressão evolutiva em favor da linguagem e da inteligência social. O cérebro feminino desenvolveu-se inicialmente no nicho social, do qual cresceu o nicho memético.
A sutileza social não é necessária apenas durante a gravidez. O homem médio é mais forte que uma atleta feminina de elite. Não há uma competição física entre os sexos e, contudo, a fêmea da espécie não é menos letal que o macho. Seus métodos, porém, são mais sutis. A IA capta isso. Abaixo estão as imagens de IA produzidas com o prompt “fofoca”.

Isso é controverso no campo do Aprendizado de Máquina, no qual os modelos podem ser treinados para ignorar esses padrões38. Na Antropologia Biológica, porém, a fofoca não é algo ruim. Foi assim que nos tornamos humanos. Talvez você conheça Robin Dunbar por sua ideia de que evoluímos para manter cerca de 150 relações sociais em nossa mente. De modo mais amplo, ele é um defensor da Hipótese do Cérebro Social — a ideia de que a inteligência humana geral surgiu do pensamento social. Em Grooming, Gossip and the Evolution of Language, ele discute aqueles que estiveram na vanguarda desse processo evolutivo:
“Se as fêmeas formavam o núcleo desses primeiros grupos, e a linguagem evoluiu para estabelecer vínculos entre esses grupos, segue-se naturalmente que as primeiras fêmeas humanas foram as primeiras a falar. Isso reforça a sugestão de que a linguagem foi usada inicialmente para criar um senso de solidariedade emocional entre aliados… Isso seria consistente com o fato de que, entre os humanos modernos, as mulheres são geralmente melhores em habilidades verbais do que os homens, além de serem mais hábeis no domínio social.”
— Dunbar, 1996. Grooming, Gossip and the Evolution of Language. p. 149.
Três anos antes, em Food of the Gods, McKenna havia observado o mesmo:
As mulheres, as coletoras na equação arcaica de caçadores-coletores, estavam sob uma pressão muito maior para desenvolver a linguagem do que seus equivalentes masculinos… É bem possível que a linguagem tenha surgido como um poder misterioso possuído em grande parte por mulheres — mulheres que passavam muito mais tempo de sua vigília juntas — e, geralmente, conversando — do que os homens; mulheres que, em todas as sociedades, são vistas como voltadas para o grupo, em contraste com a imagem do homem solitário, que é a versão romantizada do macho alfa da tropa de primatas.
Em um artigo recente para a Quillette, o psicólogo evolucionista David C. Geary explica a base neural dessas diferenças:
Áreas cerebrais desproporcionalmente maiores nas mulheres do que nos homens (controlando-se o tamanho do cérebro) dão suporte à linguagem, à cognição social (às vezes chamada de inteligência emocional), ao processamento e à reatividade emocionais e à memória contextual e espacial, entre outras funções.
…
O sistema linguístico está integrado a áreas cerebrais que dão suporte ao processamento de informações sociais. Entre elas estão várias áreas que sustentam o reconhecimento de rostos e o processamento das emoções transmitidas por expressões faciais e pela linguagem corporal, bem como a sensibilidade à direção dos olhares e à localização dos sons, como as elocuções. Muitas dessas áreas também estão integradas à rede de modo padrão, que fornece “um modelo preditivo autocentrado do mundo.” A rede contribui para os sentimentos de agência, autoconsciência, memórias pessoais, o pensamento sobre o mundo de maneiras autorreferenciais (veja também aqui), e a teoria da mente (colocar-se mental e emocionalmente no lugar de outra pessoa).
Essas diferenças cognitivas são resultado dos genes. O lugar mais natural para procurar são os cromossomos X e Y, que determinam o sexo. Eles exercem uma influência desproporcional sobre o cérebro?
Os genes que influenciam o cérebro estão basicamente distribuídos de modo aleatório pelos cromossomos. Assim, cromossomos mais longos têm mais genes e, portanto, maior influência sobre o cérebro. Simples assim. A única exceção é o cromossomo X, que tem cerca de três vezes o efeito esperado sobre a estrutura cerebral. Esse fato produz gráficos dramáticos como o apresentado abaixo:

Isso diz respeito à anatomia cerebral. E quanto à função? Outro artigo se debruça sobre o motivo pelo qual os cromossomos X e Y, apesar de compartilharem pouquíssimos genes e de terem efeitos opostos sobre o tamanho geral do cérebro, exercem efeitos semelhantes sobre redes relacionadas ao processamento social:
“Efeitos convergentes da dosagem dos cromossomos sexuais afetam preferencialmente os centros de percepção social, comunicação e tomada de decisões. Assim, apesar de uma quase completa ausência de homologia de sequência [genes que aparecem tanto nos cromossomos X quanto nos Y] e de efeitos opostos sobre o tamanho geral do cérebro [o Y produz um cérebro maior], os cromossomos X e Y exercem efeitos congruentes sobre o tamanho proporcional dos sistemas corticais envolvidos no funcionamento social adaptativo.”
Eles também observam: “Os efeitos dos cromossomos X e Y estão significativamente enriquecidos entre os estudos de neuroimagem voltados ao processamento sociocomunicativo e socioemocional.” Os cromossomos sexuais influenciam as áreas exatas necessárias para realizar o “eu sou”, possivelmente produzindo diferenças sexuais nessa capacidade quando ela surgiu.
Tim Crow, psiquiatra em Oxford, teoriza há décadas que os cromossomos sexuais são fundamentais para a evolução da esquizofrenia. Em um artigo, ele propôs um modelo de “big bang” para a origem de nossa espécie, com o desenvolvimento entrelaçado da psicose, da linguagem e da lateralização cerebral codificado pelos cromossomos sexuais.39
Se isso for verdade, seria de esperar uma seleção sobre os cromossomos sexuais quando a linguagem surgisse. De fato, houve uma seleção “extraordinária” sobre o cromossomo X nos últimos 50.000 anos. Um artigo analisou a função dos genes sob seleção. Entre os principais candidatos, os autores encontraram “um enriquecimento global de processos relacionados ao sistema neural.” Na nota de rodapé40, exploro a função de TENM1, o gene com o sinal mais forte de seleção no cromossomo X. Ele é essencial para a plasticidade cerebral e para a produção do fator neurotrófico derivado do cérebro, a versão cerebral do fator de crescimento nervoso encontrado no veneno de cobra. TENM1 é expresso em neurônios dopaminérgicos que são fundamentais para o sistema de recompensa do cérebro e que interagem com o veneno de cobra (1,2). Descobrir onde o cérebro armazena a consciência e quais genes codificam isso está muito além do escopo deste artigo. (Além de ser uma formulação tola, muitos genes e regiões cerebrais estão envolvidos de maneiras complexas.) Mas incluo isso para apontar que existem caminhos produtivos para pesquisas futuras. Nessa linha, já escrevi anteriormente sobre a possibilidade de uma seleção extraordinária no cromossomo Y entre 4 e 25 kya.
Os cromossomos sexuais constituem cerca de 5% do genoma total mas representam 20% dos tamanhos de efeito sobre a neuroanatomia. Isso subestima seus efeitos, pois eles também podem alterar a maneira como os genes de outros cromossomos são expressos. Os níveis de testosterona e estrogênio são reguladores que afetam muitos processos biológicos. A título de exemplo, os níveis de neuroticismo e o volume do núcleo caudado são particularmente influenciados por genes específicos de cada sexo (isto é, genes com efeitos diferentes conforme o sexo). O núcleo caudado é parte da rede da Teoria da Mente, e o neuroticismo está relacionado à autopercepção.
Assim, há razões teóricas e empíricas para acreditar que as mulheres, em geral, teriam desenvolvido pensamentos recursivos antes dos homens. Ao menos em grau suficiente para serem culturalmente reconhecidas e codificadas em papéis como o de “sacerdotisa” e, no mito, como uma matriarcado primordial ou uma Grande Deusa. (Talvez da mesma maneira que “alto” codifica o masculino.) Curiosamente, uma das questões fundadoras da antropologia era saber se as mulheres haviam inventado a cultura (o que requer recursividade). Johann Jakob Bachofen publicou O Direito Materno em 1861, uma década antes de A descendência do homem, de Darwin. Bachofen propôs que a gênese da cultura estava enraizada na relação entre mãe e filho, afirmando que os papéis das mulheres nessas primeiras estruturas sociais eram fundamentais para o desenvolvimento da humanidade. Isso ocorreu muito antes da datação por carbono e, portanto, não se sabia até onde se estendia a pré-história. Cronologias bíblicas de cinco ou dez mil anos pareciam plausíveis, e uma abordagem popular para compreender esse período era recorrer à mitologia. (Um método ao qual retornei sem o saber.)
Bachofen escreveu antes de a Biblioteca de Nag Hammadi ser descoberta e, portanto, não encontra nada tão explícito quanto Eva colocando uma alma em Adão. Em vez disso, apresenta exemplo após exemplo provenientes do Egito, da Grécia, de Creta, da Índia e da Pérsia. A atribuição do nome a Atenas é típica das evidências. A cidade votou para decidir se adotaria o nome de Atena ou de Netuno. Atena venceu, enfurecendo Netuno. Citando Varro:
“Para aplacar Netuno, os homens impuseram um castigo triplo às mulheres: as mulheres perderam o direito de voto; os filhos deixariam de receber os nomes de suas mães; e as mulheres perderam o privilégio de serem chamadas atenienses.”
Bachofen interpreta isso como evidência de que as mulheres, em algum momento, tiveram mais poder político, incluindo o direito de votar e de dar seu sobrenome ao filho. Ou consideremos a história do homem, desde o princípio, segundo o poeta grego Hesíodo. A Idade de Ouro equivale à vida pré-recursiva no Éden, vivida em unidade com a natureza. Foi seguida pela Idade de Prata, quando a agricultura foi introduzida. Naqueles dias, Hesíodo nos diz que “uma criança era criada ao lado de sua boa mãe durante cem anos, uma completa simplória, brincando infantilmente em sua própria casa.”
Nessas histórias, Bachofen ouviu ecos do matriarcado. Surpreendentemente, à medida que antropólogos europeus coletaram mitos do restante do mundo, o tema revelou-se global, sendo recontado em termos muito mais explícitos. Na Austrália, há cultos mistéricos que se diz terem sido estabelecidos no Tempo do Sonho. Os homens agora dominam, mas explicam:
“Mas, na verdade, temos roubado o que pertence a elas (as mulheres), pois quase tudo é assunto de mulher; e, já que diz respeito a elas, pertence a elas. Os homens realmente não têm nada a fazer, exceto copular; isso pertence às mulheres. Tudo aquilo que pertencia às Wauwelak, o bebê, o sangue, os gritos, suas danças, tudo isso diz respeito às mulheres; mas, todas as vezes, temos de enganá-las. As mulheres não conseguem ver o que os homens estão fazendo, embora isso seja realmente assunto delas, mas nós conseguimos ver o lado delas. Isso acontece porque todo o assunto do Sonho veio das mulheres — tudo… No princípio, não tínhamos nada, porque os homens não faziam nada; tomamos essas coisas das mulheres.” (Berndt 1951: 55). Kunapipi: um estudo de um culto religioso aborígene australiano
Não é preciso ler nas entrelinhas para ver um matriarcado primordial. E os relatos de tal golpe formam um padrão global. O banco de dados de Berezkin é uma coleção de 37.500 mitos de culturas diversas, meticulosamente organizada segundo os temas encontrados em cada mito. O Tema F38 é encontrado em 85 culturas que abrangem a América do Sul, a Oceania, a Austrália, a Ásia e a África. Ele afirma: As mulheres eram possuidoras do conhecimento sagrado, dos santuários ou dos objetos rituais que agora são tabu para elas. Berezkin utiliza esse e temas relacionados para correlacionar diferentes supergrupos culturais com a estrutura genética no Novo Mundo. Citando o artigo:
“Outro grupo inclui uma série de motivos centrados em F38. As mulheres perdem sua posição elevada: no princípio dos tempos ou durante certo período do passado, a posição social e/ou ritual das mulheres era superior à dos homens; as mulheres desempenhavam o papel de intermediárias entre os homens e os espíritos…
Esse agrupamento de motivos também inclui Os primeiros ancestrais homens matam mulheres que se comportam contra as normas sociais (F41); na comunidade dos primeiros ancestrais, as mulheres matam, tentam matar ou transformam os homens (F43A); e Os homens privam as mulheres de sua posição de liderança na comunidade ancestral (F39).
Examinando alguns exemplos, os xingus da Amazônia contam sobre uma época em que as mulheres reinavam. No início da era atual, os homens se uniram, depuseram-nas e as estupraram, e roubaram seus segredos41. O mesmo ocorre mais ao sul, na Terra do Fogo, onde apenas as meninas jovens sobreviveram, para serem tomadas como esposas42. Para um caso mais palatável, basta recorrer ao filme O Homem do Norte43. O filho do chefe é instruído sobre a origem da sabedoria de Odin: “Diga-me, como Odin perdeu o olho? Para aprender a magia secreta das mulheres. Nunca busque os segredos das mulheres, mas sempre lhes dê ouvidos. São as mulheres que conhecem os mistérios dos homens.”
Para saber mais, você pode assistir à cena da iniciação do filme ou consultar as notas de rodapé acima. Mas ninguém discorda de que os mitos de um matriarcado primordial são um fenômeno global. O debate está na análise. O principal argumento contra a atribuição de um núcleo de verdade a essas histórias é que atualmente não existe nenhum matriarcado. Portanto, a explicação dominante para os mitos é que eles servem como uma carta social para a subjugação das mulheres: “As mulheres governavam nos tempos do caos, e as coisas melhoraram quando os homens assumiram o controle.” Isso não faz sentido para mim. Atribuir origens lendárias aos oprimidos não é uma estratégia eficaz para manter o controle. Imagine se a escravidão nos Estados Unidos tivesse sido justificada por mitos sobre uma Afrocracia há muito perdida. Nos tempos anteriores ao caos, homens como Colombo e Jesus eram negros, e vemos no que isso deu. Para evitar tal confusão, seus descendentes podem agora ser comprados e vendidos. Seria surpreendente se essa narrativa tivesse surgido. Ainda mais se os romanos, turcos, egípcios e comanches também contassem a seus escravos variações da mesma história. Além disso, há outras classes de pessoas subjugadas, como crianças ou intocáveis. Por que é apenas a posição das mulheres na sociedade que é justificada por mitos sobre seu poder anterior? A explicação padrão na antropologia me parece uma história ad hoc.
Em 2024, a maioria das pessoas que acredita ter existido um matriarcado primordial encara a evolução darwiniana com desconfiança. Elas querem uma mensagem política segundo a qual o patriarcado é uma escolha e a força não torna algo justo. No entanto, uma vez que se aceita que os mitos podem perdurar ao longo de escalas de tempo evolutivas, nosso começo matriarcal se torna plausível, até mesmo esperado. É provável que as mulheres tenham sido a vanguarda da consciência. Se tendiam a alcançar a Modernidade Comportamental antes dos homens, então teriam tido mais poder político e religioso do que eles. Isso não precisa constituir um matriarcado estrito. Os homens matavam mamutes, portanto eram bastante capazes em sua própria esfera. A afirmação é que a cultura, nossa característica definidora, foi principalmente uma invenção feminina.
À primeira vista, “matriarcado primordial como carta social para o patriarcado” é uma estratégia estranha para surgir de modo tão consistente. Mais ainda, porém, há detalhes nos mitos que essa explicação não consegue abarcar. Em culturas de todo o mundo, afirma-se que ritos sagrados foram roubados das mulheres. Ritos sagrados que utilizam o mesmo instrumento, o zunidor.
Zunidor: totem dos difusionistas #

“Talvez o símbolo religioso mais antigo, mais difundido e mais sagrado do mundo” ~Alfred C. Haddon, 1898
Dioniso, como muitos dos filhos de Zeus, não nasceu de sua esposa Hera. Ciumenta, ela instigou os deuses mais antigos, os Titãs, a matá-lo quando ainda era uma criança. Eles o atraíram com vários objetos — um espelho, uma maçã, uma serpente, um pião e um zunidor — e o desmembraram. Mas, como muitos deuses, ele ressuscitou. Deméter (ou, às vezes, Reia ou Atena) encontrou-o e remontou suas partes dispersas. Esse ciclo é reencenado nos Mistérios Eleusinos.
Como mencionado anteriormente, culturas de todo o mundo possuem mitos nos quais o aglomerado estelar das Plêiades representa as Sete Irmãs, incluindo a Grécia e a Austrália. Na Austrália, a linha de canto das Sete Irmãs está estreitamente associada aos rituais de iniciação feminina que, segundo dizem, os homens roubaram. Assim como em Elêusis, utiliza-se o bullroarer. Trata-se de um conjunto extraordinário de fatos. Por razões estatísticas, podemos ter certeza de que a história das Sete Irmãs, em ambos os lugares, compartilha uma raiz cultural comum. Do mesmo modo, ambas as culturas possuem Mistérios que revelam como o mundo foi feito e que empregam os mesmos instrumentos físicos. A resposta mais simples é que isso compartilha a mesma raiz cultural que as Sete Irmãs.
Na Austrália, atualmente é proibido às mulheres participar desse culto que faz girar o bullroarer. Isso é bastante típico. Robert H. Lowie escreveu, em 192044:
“A questão não é saber se o bullroarer foi inventado uma vez ou uma dúzia de vezes, nem mesmo se esse simples brinquedo entrou em associações cerimoniais uma vez ou frequentemente. Eu mesmo vi sacerdotes da fraternidade da Flauta dos Hopi girarem bullroarers em ocasiões extremamente solenes, mas a ideia de uma conexão com os mistérios australianos ou africanos nunca se impôs, porque não havia qualquer sugestão de que as mulheres devessem ser excluídas do âmbito de uso do instrumento. Aí está o cerne da questão. Por que os brasileiros e os australianos centrais consideram que é mortal para uma mulher ver o bullroarer? Por que essa insistência escrupulosa em mantê-la no escuro sobre o assunto na África Ocidental e Oriental e na Oceania? Não conheço nenhum princípio psicológico que impelisse a mente dos Ekoi e dos Bororo a impedir que as mulheres tivessem conhecimento sobre os bullroarers e, até que tal princípio seja trazido à luz, não hesito em aceitar a difusão a partir de um centro comum como a hipótese mais provável. Isso implicaria uma conexão histórica entre os rituais de iniciação nas sociedades tribais masculinas da Austrália, da Nova Guiné, da Melanésia e da África.” ~Robert H. Lowie Primitive Society, p313
Você seria perdoado por pensar que isso foi retirado de contexto ou que Lowie era algum tipo de excêntrico. Nada disso. Ele atuou duas vezes como editor da revista de referência American Anthropologist45, e há muitas citações de outros autores nesse sentido. O fato é que os bullroarers são considerados sagrados em todo o mundo e que frequentemente é tabu para as mulheres vê-los. A interpretação da EToC é que as mulheres inventaram o ritual, incluindo os rituais de iniciação masculina, e que a primeira forma a se disseminar empregava o bullroarer. Um possível desdobramento da participação das mulheres na iniciação masculina é que os homens as expulsem violentamente do clube dos meninos — algo que ocorreu em muitos lugares.
Depois de um século, seria de esperar que os antropólogos tivessem respondido ao enigma do bullroarer. No entanto, a existência do instrumento é um fato desconfortável, e ele permaneceu relegado à obscuridade. Bethe Hagen, uma autoridade no assunto, escreveu em 2009:
O bullroarer e o zumbidor eram outrora bem conhecidos e muito apreciados pelos antropólogos. No âmbito da profissão, funcionavam como artefatos emblemáticos que simbolizavam o compromisso cultural-relativista com a invenção independente, mesmo quando as evidências — tamanho, forma, significado, usos, símbolos, ritual — que se estendiam por dezenas de milhares de anos da história humana apontavam para a difusão. Em praticamente todas as partes do mundo, ainda hoje esses artefatos continuam a ser inventados (?) e ressignificados de muitas das maneiras antigas.
Observe que Hagen não é uma difusionista — daí sua proposta de uma reinvenção. Ainda assim, ela aponta que a explicação mais natural é a difusão, que não foi seriamente investigada devido a compromissos ideológicos. Considere outro não difusionista, Thomas Gregor, que se manifestou em termos semelhantes em 1973:
“O interesse pela antropologia ‘difusionista’ há muito se dissipou, mas as evidências recentes estão perfeitamente de acordo com suas previsões. Hoje sabemos que o bullroarer é um objeto muito antigo: espécimes da França (13.000 a.C.) e da Ucrânia (17.000 a.C.) remontam ao período Paleolítico. Além disso, alguns arqueólogos — notadamente Gordon Willey (1971) — agora admitem o bullroarer no conjunto de artefatos trazidos pelos primeiros migrantes às Américas. Ainda assim, a antropologia moderna praticamente ignorou a ampla implicação histórica da vasta distribuição e da linhagem antiga do bullroarer.” ~Anxious Pleasures: The Sexual Lives of an Amazonian People
Penso que o bullroarer fazia parte da religião original que as mulheres inventaram para ajudar os iniciandos a alcançar a epifania “Eu sou.” Considere um relato estranho encontrado tanto na Grécia quanto no Egito. Deméter, às vezes identificada com a Grande Mãe dos Deuses, chegou a Elêusis disfarçada de uma mulher idosa. O Rei e a Rainha a acolheram, e ela se tornou ama de seu filho Demofonte. Para recompensar a hospitalidade deles, planejou conceder-lhe a imortalidade. Isso envolvia colocá-lo no fogo todas as noites e amamentá-lo com ambrosia. Certa noite, sua mãe entrou e o encontrou ardendo daquela maneira, interrompendo o ritual. Deméter então revelou-se uma deusa e deixou os mistérios eleusinos como presente de despedida. (Lembre-se de que os Mistérios eram administrados por “‘dragoas’, que se ocupam de ‘queimar’ a mortalidade humana.”) O irmão mais velho de Demofonte, Triptólemo, também aprendeu os Mistérios e a arte da agricultura. Deméter deu-lhe um carro puxado por serpentes para disseminá-los pelo restante do mundo.

Os egípcios contam uma história impressionantemente semelhante sobre Ísis, sua Grande Deusa dos Mistérios. Ísis torna-se a ama do príncipe de Biblos, no Líbano, coloca-o no fogo todas as noites, é interrompida pela rainha e então revela sua divindade.
Os antropólogos não encontram nenhum tropo tão exasperante quanto as alegações sobre as tribos perdidas de Israel, mas me parece razoável que os australianos, e muitos outros, sejam convertidos perdidos de Triptólemo ou Deméter. Não quero dizer que a Austrália tenha sido visitada por gregos ou egípcios. A difusão do culto da serpente precede em muito essas civilizações. Bullroarers, por exemplo, foram encontrados em Göbekli Tepe (11 kya). Mas, uma vez que se admite que os mitos podem durar 10.000 ou 100.000 anos, isso sugere um núcleo de verdade no trabalho missionário de Triptólemo. Os mitos das serpentes, juntamente com seus ritos, de fato se difundiram por todo o mundo. Esses mitos são lembrados. Por que não sua disseminação? O bullroarer é uma pista negligenciada por muito tempo para compreender quando e por que os mitos das serpentes se difundiram.
O Tempo do Sonho australiano pode ser interpretado como o recebimento dos Mistérios. As Sete Irmãs, a Grande Mãe ou a Serpente Arco-Íris trouxeram uma cultura que solidificou a vida interior por meio de rituais sagrados. (Às vezes, literalmente ritos de queima.)
Uma mudança cultural tão drástica afetaria a linguagem. Em The Unreasonable Effectiveness of Pronouns, explorei a ideia de que a palavra para “eu” poderia ter viajado junto com esses rituais. Isso explicaria por que a primeira pessoa do singular é ni ou na em muitas famílias linguísticas de todo o mundo: australiana, trans-Nova Guiné, basca, caucasiana, sino-tibetana, khoisan (bosquímanos San), andina, nigero-congolesa, coreano-japonesa-a inu, etrusca, kordofaniana, gilíaca, almosana, hokana, chibchana e paezana. Observe que esta é uma lista conservadora. Australiana e trans-Nova Guiné poderiam ser divididas em dezenas de famílias linguísticas menores que usam na.46
Por fim, o bullroarer pode ter sido até mesmo um ingrediente ativo na epifania do rito. Quando girado, produz uma frequência que os bosquímanos San utilizam para alcançar estados alterados de consciência desde 9,5 kya. Como mencionado anteriormente, sua dança de transe foi estabelecida quando o demiurgo Cagn veio até eles, deu-lhes pó de serpente e disse-lhes que começassem a dançar. Eles morreriam, mas depois se ergueriam renovados. Essa sequência é fundamental para culturas de todo o mundo.
Morte e renascimento #
“Como pode um homem nascer quando já é velho?”, perguntou Nicodemos. “Certamente não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe para nascer!” João 3:4

Precipitar o “eu” envolveria muito mais do que veneno de serpente. Teria existido todo um ritual concebido para ajudar alguém a perceber que não é apenas o próprio corpo, algo que precisa ser vivenciado para ser compreendido. Isso teria envolvido morte e renascimento. Mecanisticamente, isso faz sentido. O corpo produz DMT quando morremos (ou chegamos perto da morte), e situações estressantes fazem com que uma lição se fixe. Mas, além disso, se os fundamentos da cultura de fato se disseminaram, o registro mitológico indica que eles incluíam morte e renascimento ritual47.
Mircea Eliade é um dos pais da religião comparada moderna. Perto do fim da vida, escreveu sobre iniciações. Eliade argumentava que as formas mais antigas de iniciação são uma reencenação do começo dos tempos, quando deuses, demiurgos ou heróis culturais estabeleceram modos de “nascer para o espírito”. Invariavelmente, isso é precedido por uma morte ritual.
O interesse da iniciação para uma compreensão da mentalidade arcaica reside predominantemente em mostrar-nos que o homem verdadeiro — o homem espiritual — não é dado, não é o resultado de um processo natural. Ele é “feito” pelos antigos mestres, de acordo com os modelos revelados pelos seres divinos e preservados nos mitos. ~Rites and Symbols of Initiation: The Mysteries of Birth and Rebirth, 1984
Eliade não está preocupado com a evolução biológica. Para ele, o começo dos tempos é o momento em que nos tornamos humanos ao nos envolvermos com o ritual e a cultura. Como outros escritores daquela época (e muitos atualmente), ele sustentava que as formas mais primitivas de religião se desenvolveram na Eurásia há 30–40 kya e se difundiram a partir dali. No livro, ele mostra que a religião — particularmente a das culturas mais primitivas — olha para trás, para o momento mítico em que a vida espiritual foi introduzida. Depois de comparar iniciações na Austrália e na América do Sul, Eliade explica que, no mundo inteiro, elas são introduzidas por:
figuras míticas que estão, de algum modo, ligadas a um momento terrível, mas decisivo, da história da humanidade. Esses seres revelaram certos mistérios sagrados ou certos padrões de comportamento social, que alteraram radicalmente o modo de existência dos homens e, consequentemente, suas instituições religiosas e sociais. Embora sobrenaturais, no tempo dos começos esses seres míticos levavam uma vida de algum modo comparável à vida dos homens; mais precisamente, experimentaram tensão, conflitos, drama, agressão, sofrimento e, em geral, a morte — e, ao viverem tudo isso pela primeira vez na Terra, instituíram o modo de ser atual da humanidade. A iniciação revela essas aventuras primordiais aos noviços, e eles reatualizam ritualmente os momentos mais dramáticos da mitologia dos seres sobrenaturais.
Procurei citar os melhores estudiosos. Pessoas como Kerényi ou Eliade, que falavam meia dúzia de línguas e viviam e respiravam o passado. Não é por autoridade minha que culturas primitivas de todo o mundo dizem que, no começo, os mistérios da vida foram ensinados por visitantes. Se a Modernidade Comportamental — incluindo histórias da criação e rituais — tem 40.000 anos e os mitos podem durar aproximadamente esse tempo, então isso pode ser uma memória real. Minha modesta contribuição é sugerir que o fundamento foi desenvolvido por mulheres que usavam veneno de serpente como enteógeno. Minha grande contribuição seria mostrar que isso alterou a paisagem adaptativa — que os mitos da criação são relatos de tempos cognitivamente estrangeiros, quando as matriarcas deram uma alma ao Homem.
Para ser claro, penso que o resultado mais provável é a EToC fraca, segundo a qual a autoconsciência recursiva foi uma força motriz na autodomesticação humana ao longo dos últimos 50.000 anos, e as mulheres tiveram uma vantagem inicial. Nesse vale do insólito, o Culto da Serpente surgiu com uma explicação para a vida espiritual, e os Mistérios se difundiram. Essas são ideias novas que vale a pena desenvolver. A forma mais forte da EToC sustenta que os rituais associados ajudaram os homens a “alcançar o mesmo nível”, o que deveria se refletir em uma forte seleção sobre o cromossomo Y nos últimos 15.000 anos ou algo próximo disso. Isso é consideravelmente menos provável, mas vale a pena discutir porque é uma previsão a ser falseada.
Conclusão #

A cidade de Troia foi considerada um mito até que algum louco foi lá e a desenterrou. Meu projeto é semelhante, mas o que precisa ser desenterrado são questões difíceis de responder sem a EToC. Por que as Sete Irmãs das Plêiades, o zunidor, a matriarquia primordial e os mitos de serpentes são encontrados em todo o mundo? Por que eles estão tão frequentemente conectados à origem da consciência? Se a raiz cultural que os conecta tem 100.000 anos, por que as evidências de pensamento recursivo têm apenas 50.000 anos? Se tínhamos pensamento recursivo há 200 kya, por que nossa espécie não conquistou o mundo naquela época? A arte surgiu pela primeira vez aproximadamente ao mesmo tempo em que o Homo Sapiens absorveu ou superou competitivamente os neandertais, os denisovanos, Homo Florensis, Homo Longi e Homo Luzonensis — até onde sabemos no momento. Ao mesmo tempo, os crânios humanos estavam mudando de forma, e houve seleção de genes relacionados à inteligência, à linguagem e à plasticidade cerebral.
Inegavelmente, as apostas são mais altas do que no caso de Troia. Toda cultura precisa responder quem somos e de onde viemos. Como artigo de fé, muitos cientistas sustentam que os seres humanos não evoluíram significativamente nos últimos 50.000 anos. Isso levou a um compromisso incômodo, segundo o qual começamos a agir como humanos nesse período, mas essas capacidades devem ter permanecido latentes nas profundezas do nosso passado. A mente humana é uma tábula rasa, e os humanos de 50 kya descobriram o giz, por assim dizer. Isso não alterou a paisagem adaptativa de nenhuma maneira fundamental. A tábua sobre a qual a cultura escreve é impermeável às forças da seleção natural. Como ela veio a existir é um mistério inefável, mas podemos ter certeza de que, cognitivamente, os seres humanos são iguais aos nossos ancestrais trogloditas de 200 kya. A evolução não opera em escalas de tempo tão exíguas.
Suponho que isso possa ser verdade. Mas incomoda-me o quanto os defensores desse modelo são levianos ao rejeitar 40.000 anos de tradição acerca das nossas origens. A divulgação científica destila desdém pela religião e pela alma. Por exemplo, em The Recursive Mind, Corballis escreveu: “A ideia de que poderíamos ser dotados de uma transcendência espiritual recebeu respeitabilidade científica e religiosa por meio de René Descartes, às vezes considerado o fundador da filosofia moderna.” Em seguida, lamenta o fato de que nada menos que 90% dos estadunidenses acreditam em Deus. No fim, oferece uma pequena concessão a seus leitores religiosos:
“Também não devemos julgar a religião com severidade excessiva, pois há razões sólidas para supor que a crença religiosa pode ter sido ela própria um produto da seleção natural — não diretamente, talvez, mas como consequência da seleção para a sobrevivência dos grupos. Nós, seres humanos, somos fundamentalmente criaturas sociais, e a religião forneceu um mecanismo para garantir a coesão do grupo. A religião apresenta problemas para a teoria da evolução, como veremos adiante, e a ironia suprema talvez seja que a explicação para a religião esteja na própria evolução.”
É claro que eu inverteria o enquadramento. A ironia suprema talvez seja que a resposta para como evoluímos possa ser encontrada na Bíblia. Se as mulheres foram autoconscientes primeiro, o relato do Gênesis sobre os primórdios humanos pode ter sido transmitido ao longo de escalas de tempo evolutivas. Há evidências abundantes de que algumas histórias duraram esse tempo todo. Quando isso diz respeito a um “grande dilúvio”, ele é apresentado como uma história reconfortante sobre o conhecimento indígena que preserva relatos da elevação do nível do mar após a Era do Gelo. O que, então, podemos aprender sobre a Revolução Simbólica, que ocorreu no Oriente Próximo ao mesmo tempo? Essa região inventou a escrita há cinco mil anos; a história só precisaria ter sido transmitida oralmente durante metade desse tempo. A serpente do Éden e a serpente-dragão suméria Tiamat podem muito bem ser avatares das serpentes nos pilares de Göbekli Tepe.48 E quanto à transição para a Modernidade Comportamental na Austrália nos últimos 10.000 anos? Se histórias sobre mudanças climáticas podem durar 10.000 anos, também podemos aprender sobre mudanças culturais antigas e talvez até psicológicas. O Tempo do Sonho pode não ter ocorrido há tanto tempo; ele pode ser lembrado.
O dilema da evolução humana é que somos maravilhosamente e categoricamente diferentes de qualquer outro animal, mas a seleção natural opera por graus. Para resolver isso, pode-se minimizar a distância entre humanos e animais (p. ex., Corballis) ou postular uma mudança abrupta na cognição (p. ex., Chomsky). Em vez de diminuir a estatura dos humanos49 ou fazer malabarismos com a biologia, a EToC aborda o dilema por meio de uma interação direta entre genes e cultura. A cultura recursiva se disseminou e, com ela, a seleção a favor da autoconsciência recursiva. A versão forte faz todo tipo de previsão — um matriarcado primordial, o veneno de cobra como enteógeno, o Paradoxo Sapiente50 e a difusão global de rituais masculinos de iniciação — que são sustentadas por uma ampla variedade de dados. E, mesmo que o culto primordial da serpente não tenha afetado a evolução, sua existência ainda merece ser compreendida. Se o veneno era consumido em busca de iluminação na Índia, no Texas e em Elêusis, então o Gênesis descreve uma tradição verdadeiramente antiga.
Caí nessa toca de coelho ao me perguntar por que o Gênesis é uma descrição tão boa da identificação com a própria voz interior. Isso parecia um caminho viável para a consciência, algo que as mulheres descobririam primeiro, e o veneno de cobra poderia ter ajudado. Muitos pesquisadores afirmam que as Sete Irmãs, os mitos da serpente ou as cosmogonias do mundo remontam a 50.000–100.000 anos. A Modernidade Comportamental parece remontar a 7.000–40.000 anos, dependendo da região, de modo que o Gênesis poderia ser uma memória do momento em que o Homo se tornou sapiente. Como tal, a EToC deve ser levada a sério. Isto é, deve ser criticada, submetida à falsificação e examinada segundo todos os rigores do método científico. Como sempre, este é um esforço coletivo; portanto, participe.
Um homem sábio certa vez disse que a maioria dos livros deveria ser composta de posts de blog. No entanto, o melhor formato para este post é, na realidade, um livro. Eu gostaria de ter mais espaço para demonstrar, por exemplo, a conexão entre o matriarcado primordial, as serpentes e os bullroarers. Ou para discutir o caso de que o Homo possuía pensamento simbólico há 200 kya ou até mesmo há um milhão de anos. Também gostaria de desenvolver essas ideias no contexto da segurança da IA, que é mais próxima da minha área de formação. Temos n=1 exemplo do surgimento da inteligência geral e estamos prestes a construir outro. Isso deu certo para Eva e Prometeu, não é? No entanto, preciso que outras pessoas examinem essas ideias para fazer qualquer uma dessas coisas. Compartilhe este texto se quiser ver mais: toda vez que alguém perguntar por que os humanos não fizeram muita coisa entre 200–10 kya, toda vez que surgir a Teoria do Macaco Chapado, toda vez que alguém se perguntar qual é a desses malditos deuses-serpente. Além disso, deixe um comentário sobre o que você acha que funciona ou não funciona na EToC. O feedback dos leitores foi imensamente útil na passagem da EToC v2 → v3.
Δz = h^2 * β
em que Δz representa a mudança no fenótipo por geração, h^2 é a herdabilidade em sentido estrito (isto é, a contribuição genética aditiva para a característica), e *β* é o gradiente de seleção. No nosso caso, a herdabilidade (h^2) da característica em questão é aproximadamente 0,50.
Para estimar o gradiente de seleção (*β*), consideramos a correlação entre a característica e a aptidão. Com r = 0.1, e considerando que o desvio-padrão da aptidão (como o número de filhos sobreviventes) é normalizado para 1 por simplicidade, o gradiente de seleção pode ser aproximado como:
*β*=*r*×Desvio-Padrão da Aptidão = 0.1 \* 1 = 0.1
Inserindo esses valores na Equação do Melhorista, a mudança no fenótipo por geração (Δ*z*) é calculada como:
Δ*z*=0.50×0.1=0.05
Isso implica que a característica mudaria em 0,05 desvios-padrão por geração. Para determinar o número de gerações necessárias para uma mudança de um desvio-padrão, calculamos:
Número de gerações = 1 / 0.05 = 20
Isso significa que seriam necessárias 20 gerações para uma mudança de um desvio-padrão. Considerando que uma geração é tipicamente estimada em cerca de 25 anos, seriam necessários aproximadamente 500 anos (20 gerações \* 25 anos/geração) para uma mudança de um desvio-padrão.
Agora, calculemos quanto a característica se deslocaria em uma população ao longo de 2.000 e 5.000 anos:
Para 2.000 anos: 2000 / 500 \* 1 desvio-padrão = 4 desvios-padrão.
Para 5.000 anos: 5000 / 500 \* 1 desvio-padrão = 10 desvios-padrão.
Esses cálculos sugerem que a característica poderia mudar em 4 desvios-padrão em 2.000 anos e em 10 desvios-padrão em 5.000 anos sob as premissas dadas.

AA é africano antigo, XAFR é uma população “fantasma” que se miscigenou com africanos, e ASN é asiático. Modela-se que XAFR, juntamente com neandertais e denisovanos, tenha se separado dos humanos há mais de 600 kya. Em 71 kya, o grupo que saiu da África se separa dos africanos antigos. Em 58 kya, um grupo de Retorno à África se separa dos eurasiáticos e elimina os africanos antigos, bem como XAFR. *“Nosso método previu que a proporção de miscigenação proveniente do retorno à África chegava a 91% (IC 90.28–91.57), sugerindo uma substituição maciça da população africana antiga.”*
Isso faz certo sentido. Se o grupo Out of Africa tivesse alguma vantagem que lhe permitisse absorver/conquistar os neandertais e os denisovanos, isso também se aplicaria à África. Para deixar claro, este é também outro modelo e não deve ser tomado como verdade estabelecida. E, novamente, o objetivo deste ensaio é separar nossas origens meméticas e genéticas; poderíamos ter nos tornado humanos depois das primeiras ramificações. Mas isso é útil para pensar no ancestral comum mais recente da humanidade (MRCA) e em como isso informa esses debates. Este modelo situa o MRCA em no máximo 58kya. Na realidade, ele é mais recente, pois a árvore humana completa se assemelha mais a um emaranhado nos últimos 50.000 anos. Não é como se a Europa e a Ásia tivessem permanecido geneticamente separadas por 33.000 anos; como mostra o modelo, houve muita mistura entre os continentes.
Voltando a outras evidências de sapiência que remontariam a 200.000 anos. As datações iniciais frequentemente se baseiam no MRCA materno e paterno: Adão cromossômico-Y ou Eva mitocondrial. Isso produz datas de ~200.000. Mas consideremos o cenário em que XAFR, neandertais ou denisovanos tivessem linhagens sobreviventes de DNA cromossômico-Y ou mitocondrial em humanos modernos. Isso faria subitamente com que nossa espécie tivesse 600.000 anos? Faria com que universais como casamento, arte e narrativa tivessem essa idade?
“A comunhão ritual de Medeia era a combinação de um determinado ios (toxina de flecha) e seu ‘antídoto’, apropriadamente denominado Galene, ou ‘Calma’. O ios de Medeia era o produto de um ἔχις, um termo grego frustrantemente geral para ‘víbora’. As fontes médicas antigas tendem a agrupar todas as víboras em uma única família de fontes de drogas derivadas de serpentes; o envenenamento por qualquer espécie de víbora era tratado simplesmente como ‘mordida de víbora’. Para tornar as coisas ainda mais confusas, receber o sacramento de uma sacerdotisa de Équidna era referido como ser ‘atingido pela víbora’.”
“Além do veneno de víbora, dos cogumelos psicotrópicos e do açafrão-dos-prados, o ios de Medeia continha a famosa ‘púrpura’, ou πορφυρα, um corante têxtil obtido de moluscos marinhos (murex).”
“O composto de Medeia contendo açafrão-dos-prados também era chamado de ‘droga de Prometeu’ e estava estreitamente associado à cor do açafrão-dos-prados e ao impressionante corante púrpura do murex.”
De certas maneiras, as drogas barateiam a ideia, fazendo-a parecer mais ilusória ou alucinatória. Elas poderiam ser úteis para alterar estados recursivos, mas quero deixar claro que não são essenciais. Em todo o mundo, os xamãs movem a energia para cima, ao longo da coluna vertebral. Isso provavelmente fazia parte do conjunto original e é preservado na Índia com a ioga Kundalini (literalmente, “serpente”), nas Américas com várias Danças da Serpente e na África do Sul com a dança de transe. O xamanismo tem apenas cerca de 40.000 anos. Como teria sido quando um estranho chegava à aldeia e ensinava alguém a dançar ou meditar de uma maneira capaz de alcançar estados alterados de consciência? Bastante extraordinário, mesmo que as drogas não estivessem incluídas. Não é difícil ver como o mestre seria lembrado como algo mais que um mortal.

“Coroa, Cobra e Deusa-Mãe (a ‘Grande Matéria’) são uma só. Lembramos que o Olho enfurecido se tornou a cobra que Rê enrolou em torno da cabeça e que esta é a primeira coroação. Nas águas, o Olho havia vindo do Deus Supremo, portanto ele era seu progenitor. O Olho também é a Deusa-Mãe, porque toda a humanidade veio das lágrimas do Olho quando este se enfureceu. Assim, a mãe do rei — ou mãe primordial — é o Olho. Mas, como o Olho é a cobra que adorna a coroa e dela faz parte, podemos ver por que a mesma deusa pode adornar a fronte do rei e ser sua mãe ao mesmo tempo. Isto já deveria ser complicação suficiente, mas, mesmo assim, a prece contém ainda uma equação simbólica. Pode haver dois olhos, um nas Águas Primordiais e o outro na história de Hórus e Seth; mas eles também são um só. O rei é Hórus, que lutou pela coroa — isto é, pelo Olho — e que primeiro perdeu e depois recuperou seu olho verdadeiro durante o combate com Seth.”
Observe que esta não é uma estudiosa feminista, tampouco o tema do livro é a Grande Deusa ou o Matriarcado Primordial. Assim como no caso de Dunbar, essas interpretações são oferecidas por especialistas da área.
“Os cérebros masculinos são otimizados para a comunicação intra-hemisférica, e os femininos, para a comunicação inter-hemisférica… As observações sugerem que os cérebros masculinos são estruturados para facilitar a conectividade entre a percepção e a ação coordenada, ao passo que os cérebros femininos são projetados para facilitar a comunicação entre os modos de processamento analítico e intuitivo.”
Outras pesquisas descobriram que TENM1 está relacionado a tipos de epilepsia caracterizados por manifestações dependentes da idade. Considero isso interessante, dado que penso que a epilepsia está relacionada à recursividade e que ela costumava se desenvolver em uma idade mais avançada. (Observe que outros relacionaram a epilepsia a uma ruptura na arquitetura cognitiva recursiva que produz a consciência: Epilepsia e consciência recursiva, com atenção especial à teoria da consciência de Jackson)
De acordo com o Human Gene Database, TENM1 é expresso preferencialmente nos neurônios dopaminérgicos da área tegmental ventral (VTA). Estes interagem com o sistema colinérgico, que é uma parte integrante do sistema de recompensa comportamental do cérebro. A razão pela qual a nicotina causa tanta dependência é que ela sequestra esse sistema (1,2). O veneno de serpentes também tem como alvo o sistema colinérgico, embora, realisticamente, isto esteja agora muitos passos distante de TENM1.
Um catálogo de alterações de nucleotídeo único que distinguem os humanos modernos dos hominínios arcaicos (material suplementar) inclui o TENM4, funcionalmente relacionado, na lista de genes que separam os seres humanos dos neandertais e denisovanos.
Ela [a ordem patriarcal da sociedade] nem sempre foi assim, pelo menos não no mito. Dizem-nos que as mulheres dos tempos antigos (ekwimyatipalu) eram matriarcas, as fundadoras do que hoje é a casa dos homens e criadoras da cultura Mehinaku. Ketepe é nosso narrador para esta lenda das “amazonas” do Xingu.
AS MULHERES DESCOBREM AS CANÇÕES DA FLAUTA. Nos tempos antigos, há muito, muito tempo, os homens viviam sozinhos, muito longe dali. As mulheres haviam abandonado os homens. Os homens não tinham mulher alguma. Pobres dos homens, eles faziam sexo com as mãos. Os homens não eram nada felizes em sua aldeia; não tinham arcos, nem flechas, nem braçadeiras de algodão. Andavam por aí sem sequer usar cintos. Não tinham redes, por isso dormiam no chão, como animais. Caçavam peixes mergulhando na água e apanhando-os com os dentes, como lontras. Para cozinhar os peixes, aqueciam-nos debaixo dos braços. Não tinham nada — absolutamente nenhum bem. A aldeia das mulheres era muito diferente; era uma verdadeira aldeia. As mulheres haviam construído a aldeia para seu chefe, Iripyulakumaneju. Construíram casas; usavam cintos e braçadeiras, ligaduras nos joelhos e cocares de penas, exatamente como os homens. Fabricaram a kauka, a primeira kauka: “Tac… tac… tac”; cortaram-na em madeira. Construíram a casa para Kauka, o primeiro lugar para o espírito. Ah, como eram inteligentes aquelas mulheres de cabeça redonda dos tempos antigos. Os homens viram o que as mulheres estavam fazendo. Viram-nas tocar a kauka na casa do espírito. “Ah”, disseram os homens, “isto não é bom. As mulheres roubaram nossas vidas!” No dia seguinte, o chefe se dirigiu aos homens: “As mulheres não são boas. Vamos até elas.” De longe, os homens ouviram as mulheres cantando e dançando com Kauka. Os homens fizeram zunidores do lado de fora da aldeia das mulheres. Ah, logo fariam sexo com suas esposas.
Os homens se aproximaram da aldeia. “Esperem, esperem”, sussurraram. E então: “Agora!” Saltaram sobre as mulheres como índios selvagens: “Hu waaaaaa!”, gritaram. Giraram os zunidores até que soassem como um avião. Correram para dentro da aldeia e perseguiram as mulheres até capturarem todas, até que não restasse nenhuma. As mulheres ficaram furiosas: “Parem, parem”, gritavam. Mas os homens disseram: “Não servem, não servem. Suas ligaduras nas pernas não servem. Seus cintos e cocares não servem. Vocês roubaram nossos desenhos e pinturas.” Os homens arrancaram os cintos e as roupas e esfregaram terra e folhas ensaboadas nos corpos das mulheres para lavar os desenhos. Os homens deram uma preleção às mulheres: “Vocês não usam o cinto de conchas yamaquimpi. Aqui, vocês usam um cinto de cordão. Nós pintamos, não vocês. Nós ficamos de pé e fazemos discursos, não vocês. Vocês não tocam as flautas sagradas. Nós fazemos isso. Nós somos homens.” As mulheres correram para se esconder em suas casas. Todas se esconderam. Os homens fecharam as portas: esta porta, aquela porta, esta porta, aquela porta. “Vocês são apenas mulheres”, gritavam. “Vocês fazem algodão. Tecem redes. Tecem-nas pela manhã, assim que o galo canta. Tocar as flautas de Kauka? Vocês não!” Mais tarde naquela noite, quando escureceu, os homens foram até as mulheres e as estupraram. Na manhã seguinte, os homens foram buscar peixes. As mulheres não podiam entrar na casa dos homens. Naquela casa dos homens, nos tempos antigos. A primeira.
Este mito Mehinaku das amazonas é semelhante aos narrados por muitas outras sociedades tribais com cultos masculinos (ver Bamberger 1974). Nessas histórias, as mulheres são as primeiras proprietárias dos objetos sagrados dos homens, como flautas, zunidores ou trombetas. Com frequência, contudo, as mulheres são incapazes de cuidar dos objetos ou de alimentar os espíritos que eles representam. Os homens se unem e enganam ou obrigam as mulheres a renunciar ao controle do culto masculino e a aceitar uma posição subordinada na sociedade. O que devemos concluir dos paralelos impressionantes entre esses mitos? Os antropólogos concordam que os mitos não são história. É provável que os povos que os narram tenham sido tão patriarcais no passado quanto são hoje. Em vez de janelas para o passado, os relatos são histórias vivas que refletem ideias e preocupações centrais para o conceito de identidade sexual de um povo. A lenda Mehinaku começa nos tempos antigos, com os homens em um estado pré-cultural, vivendo “como animais”. Em conflito com muitos outros mitos e com a opinião Mehinaku corrente sobre o intelecto feminino, as mulheres eram as criadoras da cultura, as inventoras da arquitetura, das roupas e da religião: “Eram inteligentes aquelas mulheres de cabeça redonda dos tempos antigos.” A ascensão dos homens é alcançada por meio da força bruta. Atacando “como índios selvagens”, eles aterrorizam as mulheres com o zunidor, despem-nas de seus adornos masculinos, conduzem-nas para dentro das casas, estupram-nas e dão-lhes uma preleção sobre os rudimentos do comportamento apropriado aos papéis sexuais.
Pois entre os selk’nam a iniciação da puberdade foi, há muito tempo, transformada em uma cerimônia secreta reservada exclusivamente aos homens. Um mito de origem narra que, no princípio — sob a liderança de Kra, a mulher-lua e poderosa feiticeira —, as mulheres aterrorizavam os homens porque sabiam transformar-se em “espíritos”; conheciam as artes de fabricar e usar máscaras. Mas certo dia Kran, o homem-sol, descobriu o segredo das mulheres e contou-o aos homens. Enfurecidos, eles mataram todas as mulheres, exceto as meninas pequenas, e desde então passaram a organizar cerimônias secretas, com máscaras e rituais dramáticos, para aterrorizar as mulheres por sua vez. Esse festival continua durante quatro a seis meses e, durante as cerimônias, o espírito feminino maligno, Xalpen, tortura os iniciandos e os “mata”; mas outro espírito, Olim, um grande curandeiro, ressuscita-os. Assim, na Terra do Fogo, como na Austrália, os ritos da puberdade tendem a tornar-se cada vez mais dramáticos e, sobretudo, a intensificar a natureza aterrorizante dos cenários da morte iniciática
Antes de deixar o tema do sexo em relação às associações, devo tratar brevemente de um assunto de aparente trivialidade, mas do máximo interesse etnográfico. No esboço dos ritos de iniciação australianos, fez-se menção ao zunidor, o instrumento musical zumbidor interditado às mulheres. O cuidado tomado para impedir que os não iniciados descubram que esse simples dispositivo está na origem dos sons estranhos que ouvem é extremamente cômico; parece que a essência de todos os mistérios se concentra na produção do ruído sibilante, como se todo o alvoroço e sofrimento de um ritual prolongado atingissem seu clímax, do ponto de vista nativo, quando os meninos aprendiam a fazer uma pequena lâmina zunir pelo ar. É suficientemente notável que a pena de morte fosse aplicada à mulher que descobrisse o segredo e ao homem que o revelasse. Mas muito mais impressionante é a ocorrência da mesma associação de ideias em diferentes regiões do globo. Os exemplos seguintes bastarão para ilustrá-la.
Entre os urabunna da Austrália Central, ensina-se aos não iniciados que o som é a voz de um espírito “que leva o menino embora, tira-lhe todas as entranhas, fornece-lhe um novo conjunto e o devolve como um jovem iniciado. Diz-se ao menino que ele não deve, sob circunstância alguma, permitir que uma mulher ou criança veja a lâmina, caso contrário ele, sua mãe e suas irmãs cairão mortos como pedras”. Mais ao norte, os anula do golfo de Carpentária dizem às suas mulheres que o zumbido do zunidor é produzido por um espírito que engole o menino e depois o regurgita sob a forma de um jovem iniciado. Na iniciação dos bukaua, que vivem nas proximidades do golfo de Huon, na Nova Guiné, diz-se às mães dos noviços que o estrondo das lâminas em forma de folha é a voz de um ogro insaciável que engole e depois cospe os rapazes. Nas ilhas Salomão e nas ilhas Francesas, o zunidor também é mantido em segredo das mulheres, que acreditam que o som estranho representa a voz de um espírito, e os sulka da Nova Bretanha inculcam nelas ainda o fato de que esse ser ocasionalmente devora os não iniciados. As ilustrações anteriores foram extraídas da literatura australiana e oceânica. Mas o que dizer quando concepções semelhantes aparecem em várias partes da África? Os ekoi do sul da Nigéria não permitem que nenhuma mulher veja os zunidores nem conheça a causa dos sons que produzem, e regulamentos semelhantes são registrados entre os distantes nandi da África Oriental. Entre os iorubás, as mulheres podem de fato ver e até manusear os zunidores, mas em nenhuma circunstância devem vê-los em movimento. Um gesto jocoso do Dr. Frobenius, sugerindo que estava prestes a fazê-lo girar pelo ar, bastou para lançar as mulheres em convulsões, e relata-se que, nos tempos antigos, as mulheres que aparecessem durante uma procissão da sociedade masculina, quando esses instrumentos eram girados pelo ar, eram impiedosamente condenadas à morte. Por fim, deve-se citar um exemplo sul-americano. Os bororos do Brasil central realizam ritos funerários nos quais zunidores são girados; esse é o sinal para que todas as mulheres corram para a floresta ou se escondam em casa, para não morrerem. Aqui, os homens compartilham a crença de que a simples visão de um zunidor causaria automaticamente a morte de uma mulher, e o Dr. von den Steinen foi advertido a evitar fatalidades, jamais mostrando às mulheres ou às crianças um exemplar que havia comprado.
Essas semelhanças dificilmente são de natureza que permita ignorá-las. Elas despertaram o interesse de Andrew Lang, que as explicou como resultado de “mentes semelhantes, trabalhando com meios simples em direção a fins semelhantes” e repudiou expressamente a “necessidade de uma hipótese de origem comum ou de empréstimo para explicar esse objeto sagrado amplamente difundido”. Nessa interpretação, ele foi seguido pelo Professor von der Steinen, que observa que um dispositivo tão simples quanto uma tábua presa a um cordão dificilmente pode ser considerado um desafio tão grande à engenhosidade humana que exija a hipótese de uma única invenção ao longo da história da civilização. Mas isso é confundir o problema…
“Ambos os tipos de dados [genéticos e linguísticos] também mostram que a população se expandiu do nordeste para o sudoeste. Essa migração ocorreu nos últimos 10.000 anos e provavelmente veio em ondas sucessivas, diz Bowern, nas quais as línguas existentes foram sobrepostas por novas línguas. Essa expansão também parece corresponder a uma inovação em ferramentas de pedra chamada lâmina de gume retocado. Mas o fluxo gênico que a acompanhou foi apenas um fio, sugerindo que poucas pessoas exerceram um impacto cultural desproporcional, diz Willerslev. ‘É como se dois homens tivessem entrado em uma aldeia, convencido todos a falar uma nova língua e adotar novas ferramentas, tido um pouco de interação sexual e depois desaparecido’, diz ele. Em seguida, as novas línguas continuaram a desenvolver-se, seguindo os padrões mais antigos de separação populacional. ‘É realmente estranho, mas é a melhor maneira de interpretar os dados nesta etapa.’”
A disseminação de cosmogonias e rituais de iniciação pode explicar por que tal processo ocorreria. Tanto a Papua-Nova Guiné (PNG) quanto a Austrália usam o zunidor na iniciação masculina e dizem tê-lo roubado das mulheres há muito tempo. Além disso, ambas as famílias linguísticas usam “na” para a primeira pessoa do singular. Ademais, linguistas na PNG estimam que a base de todas as línguas ainda existentes da família da PNG tenha entrado da Eurásia há ~10 kya e eliminado o que existia anteriormente (embora parte dessa camada sobreviva como um “substrato arcaico”). Naquela época, a Austrália e a PNG estavam conectadas. Por que o processo de difusão pararia na fronteira inexistente com a Austrália? Muitas linhas de evidência sugerem que não parou.
Sei que fiquei pendurado em uma árvore batida pelo vento por nove longas noites, ferido por uma lança, dedicado a Odin, eu mesmo a mim mesmo, naquela árvore da qual nenhum homem sabe de onde correm as raízes.
Não me deram pão nem bebida de um chifre, olhei para baixo; apanhei as runas, gritando, apanhei-as, então caí de lá.
Este é o motivo do “deus enforcado”, que inclui Odin, Jesus, Prometeu, a carta do enforcado do tarô e possivelmente Ixtab. Os detalhes de “eu mesmo a mim mesmo” e da lança são tão semelhantes à crucificação de Jesus — Seu sacrifício a Si mesmo, Deus Pai — que se debate a existência de influências do Novo Testamento. Veja suspensão por ganchos para paralelos rituais.

Serpentes representadas em diferentes pilares de Göbekli Tepe. Elas são frequentemente representadas ao lado de formigas ou escorpiões (consulte este artigo para outros exemplos). Isso poderia estar relacionado à muda da pele ou do exoesqueleto, mas considero o veneno um fator unificador mais provável. Dado que algumas histórias duram 10.000 anos, aspectos da teologia desse culto poderiam ter se infiltrado em nossa própria cultura. Gosto da ideia de o mestre de cerimônias encorajar os iniciandos: “A serpente poderá ferir seu calcanhar, mas você esmagará sua cabeça.”
Latir ou não latir, eis a questão— Se é mais nobre na mente suportar Os esquilos e carteiros da fortuna ultrajante, Ou erguer uma pata contra um mar de problemas E, urinando, dar-lhes fim ↩︎
A Hipótese Lexical sustenta que o modelo mais completo das diferenças de personalidade está incorporado na linguagem que usamos para descrever uns aos outros. Além disso, a tarefa de um psicólogo da personalidade não é teorizar sobre todas as facetas da personalidade, mas identificá-las empiricamente na linguagem natural. Assim, os Cinco Grandes foram identificados por meio da análise da distribuição dos adjetivos de personalidade. Em seu modelo de personalidade mais bem-sucedido, os psicólogos abandonaram a teorização e deferiram às massas. O projeto colaborativo da linguagem pode encontrar a forma de abstrações aparentemente incompreensíveis, inclusive daquilo que distingue os humanos. Daí o uso de “alma”. ↩︎
Adoto esse viés porque ele é implicado pelo fato de os mitos de criação serem informativos. Se as informações contidas nas cosmogonias perduraram em escalas de tempo evolutivas, então essas escalas de tempo evolutivas devem ser relativamente curtas. Os arqueólogos são explícitos ao afirmar que adotam o viés oposto. Isso ocorre frequentemente por razões políticas, embora também possa ser justificado por uma forte priorização de cronologias evolutivas longas. ↩︎
Tecnicamente, o jpeg é um algoritmo com perdas; portanto, não armazena exatamente as mesmas informações. ↩︎
Muitos processos recursivos compartilham os mesmos recursos cognitivos. A música recursiva elucida os mecanismos neurais que sustentam a geração e a detecção de hierarquias melódicas:
↩︎“A capacidade de utilizar incorporação hierárquica recursiva (RHE) foi demonstrada nos domínios da linguagem (Perfors et al. 2010), da música (Martins et al. 2017), da visão (Martins et al. 2014a, b, 2015) e no domínio motor (Martins et al. 2019). Embora pesquisas comportamentais sugiram que a RHE seja instanciada por recursos cognitivos semelhantes nesses domínios (Martins et al. 2017), não está claro em que medida ela também é sustentada por mecanismos neurais semelhantes.”
Pode-se ouvir ecos dos Upanixades na definição de bom sexo de Aella:
“Mas, aqui, [bom sexo] significa algo como ‘perder-se na experiência’. Quando olho retrospectivamente para experiências sexuais que considero ótimas, todas têm em comum o fato de eu, de certo modo, me tornar o sexo, se isso faz sentido. Quer dizer, já não sou o cérebro de Aella, fazendo coisas cerebróides; sou o corpo de Aella, fazendo coisas orgasmáticas. Perdi o fio da meada, não me lembro qual era a trama; sou apenas uma criatura sexual emitindo um fluxo constante de sons.”
A constelação primordial de temas: unidade, depois individualidade, depois o desejo de união com outro. Não é por acaso que Enkidu é civilizado no Épico de Gilgámesh pela prostituta Shamhat. Ela é mais bem compreendida como uma sacerdotisa; o sexo reescreve a fronteira do eu. Isso foi utilizado desde o princípio. ↩︎
Se uma característica é adaptativa, sua frequência na população aumentará a cada geração de acordo com a Equação do Melhorista: ↩︎
O objetivo deste ensaio é separar nossas raízes culturais de nossas raízes genéticas. No entanto, mesmo que se presuma que nossas raízes genéticas e culturais sejam idênticas, não há necessidade de recuar 300.000 anos. Consideremos outro modelo. Este artigo recente encontra evidências genéticas de um grupo de Retorno à África: ↩︎
A ascensão do Homo sapiens: a evolução do pensamento moderno, página 238
Carl Ruck fornece a mesma data em Entheogens, Myth, and Human Consciousness: “Os humanos deixaram um registro de experiências cognitivas que remonta ao primeiro surgimento do Homo sapiens no Paleolítico tardio, há aproximadamente 32.000 anos.” Ele chega a conjecturar que os ritos de iniciação realizados no mundo inteiro remontam aos templos rupestres onde encontramos a arte mais antiga, algo a que voltaremos:
↩︎“Entre os povos indígenas atuais que ainda realizam ritos em cavernas, mulheres e homens têm cavernas separadas. A caverna é vista como o local do surgimento primordial de sua tribo a partir do solo, o lar de seus ancestrais e o lugar onde seu mito mais secreto é recontado. As marcas de mãos são interpretadas como prova de sua ancestralidade antiga, e novas marcas são traçadas no curso de rituais sangrentos da puberdade. Se há um tema comum em todas essas pinturas no mundo inteiro, provavelmente são cerimônias religiosas de tipo xamânico ou iniciático.”
Sobre as evidências da modernidade comportamental:
“Argumentaremos que essas evidências na Austrália são fragmentárias e que muitos dos marcos característicos só emergem no Holoceno médio a tardio. As evidências de atividade simbólica no Pleistoceno australiano se assemelham mais estreitamente ao Paleolítico Inferior e Médio europeu e africano.”
↩︎“O registro arqueológico australiano raramente é considerado nos debates acerca da natureza e do surgimento do comportamento simbólico inicial (mas ver Holdaway & Cosgrove 1997); este artigo tentou corrigir esse desequilíbrio. Como discutimos, antes das rápidas mudanças culturais em escala continental do Holoceno médio a tardio, o ritmo da mudança cultural na Austrália era lento e esporádico, e a distribuição da atividade simbólica era fragmentária no tempo e no espaço. Acreditamos que há amplas semelhanças entre os padrões do registro arqueológico australiano do Pleistoceno e do Holoceno e os padrões dos registros arqueológicos africano e europeu do Paleolítico Médio e Superior, semelhanças que não podem ser confortavelmente ignoradas. A aplicação da assinatura arqueológica do comportamento humano moderno defendida pelos proponentes da ‘perspectiva de curto alcance’ à Austrália pleistocênica indica que os ancestrais dos povos aborígenes não eram comportamentalmente modernos até relativamente pouco tempo atrás, talvez apenas nos últimos 7000 anos. Se rejeitarmos essa conclusão — como fazemos —, surgem problemas tanto com a lógica quanto com a validade do modelo de ‘curto alcance’ das origens do comportamento moderno.” ~Revoluções simbólicas e o registro arqueológico australiano, 2005
O enquadramento do antropólogo também é falso nesse sentido. Uma data posterior a 300 kya não exige que “todos, em toda parte, coincidentemente se tenham tornado plenamente humanos da mesma maneira e ao mesmo tempo, a partir de 65.000 anos atrás”. O comportamento plenamente humano não é evidenciado em 65 kya, nem se distribui uniformemente quando emerge entre 40–50 kya. A arqueologia indica que foi um processo de dezenas de milhares de anos, não um evento. ↩︎
A data final é difícil de determinar. Uma tese central de seu trabalho é que a evolução da recursividade levaria muitos milhares de anos. Isso faz parte de sua preferência pela janela de 400–200 kya; há tempo suficiente para a seleção natural. Contudo, ele reconhece que não há muitas evidências de recursividade naquele período e, portanto, sugere que ela pode ter emergido há 40 kya, sem dizer quando esse processo teria terminado. Ele escreve: “O Paleolítico Superior marcou quase 30.000 anos de mudança quase constante, culminando em um nível de modernidade equivalente ao de muitos povos indígenas atuais.” Dada sua ênfase em que a evolução leva tempo, e o início do processo em 40 kya, interpreto isso como significando que níveis modernos de recursividade foram alcançados 30.000 anos depois, isto é, em 10 kya. Isso é semelhante ao momento sugerido por Poulos, Benítez-Burraco, Progovac e Renfrew. É o fim do Paradoxo Sapiente. ↩︎
É bastante comum explicar a evolução neural por fatores ambientais. Por exemplo, o artigo de 2016 Uma história genômica da Austrália aborígene encontrou sinais de seleção. Os autores relatam:
Entre os picos mais bem classificados (Tabela de Dados Estendidos 2), encontramos genes associados ao sistema tireoidiano (NETO1, sétimo pico na varredura global, e KCNJ2, primeiro pico na varredura local) e aos níveis séricos de urato (oitavo pico na varredura global). Os níveis de hormônios tireoidianos estão associados a adaptações específicas dos aborígenes australianos ao frio do deserto39, e níveis séricos elevados de urato estão associados à desidratação40. Esses genes são, portanto, candidatos a uma possível adaptação à vida no deserto. Contudo, são necessários estudos adicionais para associar variantes genéticas presumivelmente selecionadas a adaptações fenotípicas específicas nos aborígenes australianos.
No entanto, muitos dos candidatos também estão relacionados a processos neurais (por exemplo, CBLN2, NETO1, SLC2A12 e TRPC3). Talvez estudos adicionais possam verificar se eles têm relação com a revolução simbólica.
O artigo de 2023 O panorama da variação estrutural genômica nos australianos indígenas também relata evidências de seleção desde a separação em relação aos eurasiáticos. ↩︎
No suplemento, os autores são um pouco mais incisivos. Seção 3.6 A função neurológica como alvo adaptativo subestimado nos seres humanos:
↩︎“Cerca de um terço dos 32 genes candidatos eurasiáticos antigos aos quais se pôde atribuir uma função fisiológica clara está associado à função neurológica (Tabelas 1, S6). Nossas análises temporais indicam que a maioria desses genes neuronais (82%; 9/11) esteve sob seleção durante o período de Estagnação Arábica, de ~80–50ka, enquanto os dois genes restantes (WWOX e DOCK3) surgiram imediatamente depois, durante o Paleolítico Superior Inicial (~47–43ka). As adaptações neuronais parecem, portanto, ter sido componentes essenciais do ambiente seletivo durante a Estagnação Arábica e durante a fase inicial da dispersão do AMH pela Eurásia. Novamente, isso é provocativo, dadas as sugestões arqueológicas de rápido desenvolvimento cognitivo durante esse período.”
Este artigo recente sustenta que o comportamento simbólico mais antigo de qualquer tipo consiste em 6 entalhes feitos em ossos de auroque há 120 kya, em Israel. A partir de 100 kya, há evidências esparsas de sepultamentos. ↩︎
Não é por acaso que McKenna não recorre à Bíblia. Muitos de sua geração (e da nossa) têm um ponto cego em relação à tradição ocidental. Ele se empenhou consideravelmente em prever o fim do mundo a partir do calendário maia, mas não deu muito crédito ao apocalíptico Livro do Apocalipse. Ninguém é profeta em sua própria terra. Depois de argumentar que a realidade é construída pela linguagem e que o xamanismo arcaico compreendia isso, McKenna escreve:
Se a linguagem é aceita como o dado primário do conhecimento, então nós, no Ocidente, fomos tristemente desorientados. Somente as abordagens xamânicas poderão nos dar respostas às perguntas que consideramos mais interessantes: quem somos, de onde viemos e em direção a que destino nos movemos?
Mas a Bíblia deixa isso claro: no princípio era o Verbo! Isso é elementar. Para dar um exemplo recente, Jordan Peterson entrevistou o apologista cristão e matemático John Lennox, cujo principal argumento era que a Bíblia está correta ao afirmar que o universo se baseia na linguagem, algo que a ciência não conseguiu compreender. ↩︎
Presumi que o gênero de cobras Naja fosse cognato de Naga, do hinduísmo, mas, segundo a Wikipédia, isso é controverso. O ChatGPT também discutiu comigo a esse respeito. Mas, pelo lado positivo, se este texto ganhar repercussão suficiente, versões futuras do ChatGPT serão treinadas com base neste ensaio e concordarão. Epistemologia de SEO: que vençam os melhores memes. ↩︎
Menção honrosa a citações de Hillman: ↩︎
Encontrei vários blogs que fazem essa afirmação, embora, infelizmente, sem fontes. Para evitar a deterioração dos links, seguem aqui as passagens relevantes: “Outros sugeriram que os transes dos oráculos poderiam ter sido provocados pelo veneno de serpente, particularmente o da cobra ou da krait, conhecido por ser alucinógeno, que a vidente talvez tivesse confundido com visões divinas.” Do blog: Cleopatra’s Affairs Were a Political Gamble… that Failed
Ou, de Root Circle:
“Outras indicações sugerem fortemente que os oráculos induziam um transe por meio do uso de veneno de serpente. Há evidências sólidas de culto às serpentes, criação de serpentes e ritos divinatórios que envolviam tanto serpentes vivas quanto serpentes míticas. Muitos templos sagrados e centros de culto abrigavam várias espécies de serpentes, cuidadas pelos sacerdotes e sacerdotisas que administravam os templos.
‘Entre os romanos, um culto à serpente está principalmente relacionado aos animais como encarnações do gênio, e serpentes eram mantidas em grande número nos templos e nas casas. O culto grego à serpente Asclépio provavelmente influenciou os romanos……Um aspecto mais nativo do culto é observado na caverna da serpente em Lanuvium, para onde virgens eram levadas anualmente a fim de provar sua castidade.’ ~Encyclopedia of Religion and Ethics”
Também repetido em The Oracle of Delphi – mutterhood ↩︎
The God who Comes: Dionysian Mysteries Revisited, página 34
↩︎“…o Templo de Deméter, que pode ter abrigado serpentes sagradas. Uma das espécies que se sabe terem sido mantidas e reverenciadas pelos gregos era a cobra-gato-cipriota, uma bela criatura amarelo-pardacenta, salpicada de marrom-arroxeado, cujo veneno — de outro modo inofensivo aos seres humanos — supostamente é psicoativo; diz-se que o veneno da cobra-africana-de-brilho-púrpura produz efeito semelhante. Todos os festivais dos Mistérios que parecem ter utilizado serpentes, como as cerimônias de Agrai, Tesmofória e Arréforia, podem ter sido momentos de alimentação para répteis sagrados desse tipo.” ~Rosemarie Taylor-Perry
The Writings of the Fathers, página 27
“E se eu abordar os mistérios? Não os divulgarei em escárnio, como dizem que Alcibíades fez, mas exporei muito bem, pela palavra da verdade, a feitiçaria neles ocultada; e esses assim chamados deuses vossos, cujos são os ritos místicos, eu os exibirei, por assim dizer, no palco da vida, aos espectadores da verdade. Os bacantes celebram suas orgias em honra do frenético Dioniso, comemorando seu frenesi sagrado mediante o consumo de carne crua, e procedem à distribuição dos membros das vítimas abatidas, coroados de serpentes, bradando o nome daquela Eva por meio de quem o erro veio ao mundo. O símbolo das orgias báquicas é uma serpente consagrada. Além disso, segundo a interpretação estrita do termo hebraico, o nome Hevia, aspirado, significa uma serpente fêmea.”
Isto é semelhante à descrição que o poeta grego Catulo faz de uma orgia báquica:
Então, excitados, enfureciam-se por toda parte com a mente enlouquecida, gritando como loucos “Evoé! Evoé!”, enquanto sacudiam a cabeça. Alguns brandiam tirsos com as pontas cobertas, alguns agitavam os membros de um touro esquartejado, alguns cingiam-se de serpentes retorcidas; alguns carregavam, em solene procissão, obscuros mistérios encerrados em cofres, mistérios que os profanos desejam em vão ouvir. ~Catulo, 64.251-264 (tradução adaptada da de F. W. Cornish em The Loeb Classical Library)
“Evoé” era bradado nas orgias, e Clemente pensava que isso significava “Eva”. Observe que a maioria não estabelece a conexão. O dicionário diz que se trata do grito de êxtase usado nas celebrações báquicas. ↩︎
O Olho também é a Grande Deusa. A obra de Robert Clark, Myth and Symbol in Ancient Egypt, página 218:
↩︎“O Olho é o símbolo mais comum no pensamento egípcio e o mais estranho para nós. Crawford demonstrou recentemente que a deusa da fertilidade do mundo neolítico, tanto na Ásia quanto na Europa, era representada por um olho — ou por olhos. É quase certo que o Egito tenha se inserido na esfera desse culto primitivo do olho, mas o ‘Olho’ sagrado egípcio era tão complexo e individual que ainda é impossível relacioná-lo a ideias de outras partes do mundo. Um fato se destaca: o Olho egípcio era sempre um símbolo da Grande Deusa, qualquer que fosse o nome que ela tivesse em cada caso específico.”
Contexto da citação de seu artigo Out of Africa: The journey of the oldest tales of humankind:
“O mais proeminente é o assassinato do Dragão primordial pelo Grande Herói, um descendente do Pai Celestial. Na Índia, é Indra quem mata o réptil de três cabeças, assim como seu ‘primo’ iraniano ThraØtaona mata um dragão de três cabeças, ou como seu equivalente distante no Japão, Susa.no Wo, mata o monstro de oito cabeças (Yamata.no Orochi). No Ocidente, na Inglaterra, é Beowulf; na Edda, é Sigurd, o Siegfried do Épico medieval dos Nibelungos (utilizado por Wagner em sua ópera), que realizam esse feito heroico. Podemos também comparar o assassinato da Hidra de Lerna por Héracles e, no mito egípcio, o assassinato do ‘dragão das profundezas’ pelo Sol vitorioso quando ele passa subterraneamente, todas as noites, de volta em direção ao leste, para nascer novamente. Há até ecos tão distantes quanto nos mitos recentes havaianos, nos primeiros mitos chineses e nos mitos maias. É somente depois que a terra foi fertilizada pelo sangue do Dragão que ela pode sustentar a vida.”
Ele identifica 15 elementos de cosmogonias encontrados na Eurásia e nas Américas. Os últimos são uma correspondência bastante boa para a disseminação de um culto à serpente a partir de um núcleo lendário (Europa gravetiana? Sibéria? Anatólia?) para esferas locais de influência:
↩︎9 primeiros seres humanos e seus primeiros atos malignos (ou semidivinos); problema do incesto 10 heróis e ninfas/Apsaras/Valquírias 11 matar o dragão / uso da bebida celestial 12 trazer o fogo / alimento / cultura 13 disseminação da humanidade / nobreza local (“reis”)
As datações da arte rupestre são difíceis, pois não há matéria orgânica sobre a qual se possa realizar datação por carbono. Muitas das datas são estabelecidas relacionando um estilo de pintura a um período específico. Então, presume-se que tudo o que pertence àquele estilo seja daquele período. Uma dúvida que tenho sobre a datação desta é o quanto o estilo se assemelha às imagens seguintes, datadas de milhares de anos depois. No entanto, o argumento não depende das datas, portanto não investiguei o assunto mais profundamente. ↩︎
Ver as entrevistas de Schmidt na National Geographic ou em The New Yorker ↩︎
Isso explicaria por que a cultura Clóvis se disseminou tão rapidamente pela América do Norte e pela América do Sul, e por que os habitantes anteriores contribuíram com tão pouco material genético. Pela mesma razão, os denisovanos deixaram poucos vestígios na Ásia: não possuíam recursão e, portanto, foram exterminados ou absorvidos quando humanos sapientes passaram por aquela região. ↩︎
Seu raciocínio para a data de 160 kya é a divergência genética dos bosquímanos san. Pesquisas recentes estimam que ela ocorreu há 300 kya; pergunto-me se ele atualizaria seu modelo de acordo com isso ou se permitiria a difusão. ↩︎
↩︎“Mas os indígenas hopi têm uma relação íntima com a serpente viva e a respeitam como um avatar. Eles acreditam que feiticeiros mortos retornam como cobras-touro e que, se estas forem mortas, a alma será libertada. O Clã da Serpente realiza a antiga Dança da Serpente, uma cerimônia anual de nove dias para induzir a chuva, realizada no Arizona e no Novo México. Grande parte do evento é secreta, mas quatro dias são dedicados à caça de uma espécie de cascavel conhecida como nuntius, que significa ‘mensageiro’ (uma centena pode ser capturada). No último dia, ao pôr do sol, após um rito de purificação, os sacerdotes, vestidos como figuras míticas, dançam lentamente em círculo, carregando serpentes vivas na boca e substituindo-as periodicamente. Depois de muitas horas, os sacerdotes descem correndo das mesas até áreas sagradas, onde as serpentes são libertadas para levar mensagens aos deuses.” ~Snake, Drake Stutesman
Ver, por exemplo, o culto polinésio que ainda adora um soldado americano como deus. ↩︎
Por exemplo, o artigo Mãe Terra das Águas do Norte relata: “A opinião aborígene no norte da Austrália é clara: a Mãe de Todos Nós veio de além-mar. Sua casa era frequentemente uma terra distante.” ↩︎
Ele formula as coisas de maneira um pouco mais dura. Os andamaneses vivem em uma cadeia de ilhas ao sul de Mianmar. Com frequência, são tratados como relíquias culturais da primeira migração de povos que também povoou a Austrália (por Witzel, por exemplo). Sobre eles, Campbell afirma:
“Os primeiros andamaneses não conheciam nem a cerâmica nem o porco. Ambos foram importados por volta de 3000 a.C., e a proeminência do porco feral em seus mitos mostra que uma mitologia associada (neolítica ou da Idade do Bronze) também deve ter sido introduzida naquele momento. A cerâmica se deteriorou, os porcos domesticados tornaram-se selvagens e, à medida que a tecnologia do continente se desintegrou, vários de seus elementos foram absorvidos pelas tradições locais de caça e coleta.”
Depois de relacionar várias histórias andamanesas aos mitos gregos e do Oriente Próximo sobre a Grande Deusa, ele continua:
“Não podemos, portanto, presumir (como fez Radcliffe-Brown) que essas histórias andamanesas sobre a caça ao porco e sobre os porcos sejam verdadeiramente nativas dos ilhéus e tão primitivas quanto sua cultura. Elas são, antes, os fragmentos de uma mitologia continental que regrediu — isto é, que se tornou selvagem como os próprios porcos e que, como a cerâmica associada, se deteriorou, fragmentando-se, por assim dizer, em cacos.”
Ou considere seu relato sobre a África subsaariana (página 132): “Os bosquímanos são os últimos herdeiros da extensão meridional da grande explosão criativa de cerca de 30.000 a.C.” ↩︎
Esse enigma também se aplica à linguagem. Por que as línguas australianas são tão semelhantes entre si e diferentes das da PNG? Ver: Tempo, diversificação e dispersão no continente australiano: três enigmas da pré-história linguística. ↩︎
Perceptions Of The Serpent In The Ancient Near East: Its Bronze Age Role In Apotropaic Magic, Healing And Protection.
O nome semítico de Eva era Hawwa. Esse nome foi relacionado etimologicamente às palavras para serpente e vida. Wallace (1985:148) informa que a relação entre os nomes de Hawwa e serpente havia sido observada pelos primeiros intérpretes rabínicos. A relação entre Eva e a serpente, bem como a possibilidade de ela ser uma deusa-serpente, ou até mesmo uma serpente, foi explorada por estudiosos como Nöldeke, Wellhausen e Gressman (Wallace 1985:148). Mais recentemente, Wilson (2001:216) considera que a serpente representa Ašerah. A relação etimológica entre serpente e vida é sustentada por Wilson (2001:210): ‘a serpente não é o agente por meio do qual a vida é retirada do homem; ela é a protetora da vida…’.
Ela prossegue argumentando que Eva é a deusa-serpente pan-cananeia ‘Elat, que frequentemente aparece com nenúfares, uma boa fonte de rutina: ↩︎
Nachash and Asherah: Serpent symbolism and death, life, and healing in the Ancient Near East, LS Wilson 1999
“Este estudo investiga a raiz semítica nhš, que significa tanto a serpente quanto a prática da magia ou da adivinhação. Demonstra-se que nhš tem a conotação de uma oferenda de libação, e não de magia ou adivinhação genéricas. Examinam-se as origens filológicas de nhš em relação ao seu papel no drama do Éden.”
Vale observar que ele também relaciona o culto da serpente ao sacrifício humano (minha tese é que o sacrifício humano surgiu de rituais violentos de morte e renascimento provocados pelo veneno de serpentes):
↩︎“O papel da serpente como agente da vida, da morte e da cura é demonstrado nas várias culturas, tanto individualmente quanto em combinação. A figura dravidiana das serpentes entrelaçadas em árvores expressa o atributo da vida e da fertilidade, assim como o egípcio Shaï ou agathós daímōn. A presença enigmática, embora ubíqua, de Ašerah na Bíblia é discutida em detalhe. As características ofídicas da deusa Ašerah nos sistemas cultuais relevantes do Oriente Próximo são confirmadas tanto por material epigráfico e iconográfico já existente quanto por material recém-descoberto. Da Fenícia, de Cartago e, em certa medida, da Mesopotâmia, aprendemos sobre o rito do sacrifício humano como prática aceita e, assim, sobre a serpente como agente da morte.”
The Myth of the Serpent and the Birth of Mankind. A Projection into Proto-Indo-European Culture.
↩︎“A luta é total, o espírito está totalmente absorvido, medo e coragem são uma única coisa, o sangue bombeia dentro das veias, alguém perde a vida, mas o momento é tão intenso que na mente do primeiro guerreiro da história dos homens ocorre uma explosão sensorial; em um instante, tudo fica claro: o céu, a terra, a própria essência, a serpente, os afetos, a vida, a morte. Suas percepções atravessam as coisas. Ele derrotou a serpente, massacrou-a brutalmente, impiedosamente — a autoconsciência é diretamente proporcional à força de vontade conduzida pelo coração. ,A luta terminou, o homem pode agora ensinar aos outros a consciência adquirida, “eu sou” *h1e’smi, “tu és” *h1e’sti. A batalha terminou, a humanidade possui as fontes luxuriantes e pode estabelecer-se, compreendendo com facilidade os ciclos naturais ao longo do crescimento e da morte, a mudança das estações, a função de uma semente. Ele descobre a agricultura, a criação de ovinos, a roda, o carro. O fogo que Agni representa é a consciência que flui das fontes redimidas que, a partir de então, terão muitas formas.”
*“Mas o principal valor de um estudo das origens humanas, da minha perspectiva política, é que ele demonstra, primeiro, que a vida primitiva era comunista (Engels 1972 [ 1 884}; Lee 1988). Em segundo lugar, ensina-nos que a revolução está no próprio âmago do que somos.” ~*Chris Knight, Blood Relations: Menstruation and the origins of culture
“Nesse contexto, o núcleo da tese em evolução e talvez o achado etnográfico mais empolgante a que meu modelo me conduziu foi que aquilo que os pesquisadores de campo de orientação funcionalista de um período anterior haviam considerado uma construção aborígene que simbolizava ‘sexo’, ‘mudança do tempo’, ‘água’, ‘falo’, ‘útero’ ou alguma outra categoria pronta, familiar aos europeus — essa chamada ‘Serpente’ não era nada disso. Seu significado não era uma coisa. Não se referia a algo externo ao sujeito humano. Era — decidi quando os primeiros lampejos de compreensão começaram a me atingir — pura subjetividade. Era solidariedade. Era minha luta de classes. Era a linha de piquete, a bandeira vermelho-sangue, o Dragão de muitas cabeças da resistência. Era a derrubada do Capitalismo dos Primatas — o triunfo da grande Greve Sexual que havia estabelecido o domínio cultural.” ~Relações de Sangue
Também vale mencionar sua cronologia, com a qual concordamos aproximadamente:
↩︎“Penso que essa intensidade multinivelada de sociabilidade e compartilhamento mental — e é isso que quero dizer por ‘cultura’ nas páginas seguintes — foi alcançada universal e estavelmente no máximo há 90.000 e, mais provavelmente, há 40.000 a 45.000 anos (Binford 1 989; Trinkaus 1 989). Também penso que ela emergiu não de maneira gradualista, mas em uma explosão social, sexual e política maciça — ‘a explosão criativa’, como foi chamada (Pfeiffer 1982).” ~Relações de Sangue
Ver Myth and Symbol in Ancient Egypt, de Robert Clark. Página 76: “Isso significa que a separação entre a terra e o céu, o início do tempo calendárico, marca a transferência para a supremacia masculina?” Da perspectiva masculina, isso pode ser verdade. Eles só poderiam assumir o controle depois que a recursão (aqui, marcada pela dualidade e pelo tempo) se tornasse uma segunda natureza (primeira natureza?) entre os homens.
“Até aqui, o Deus Supremo e as Águas Primevas foram considerados masculinos ou bissexuais. Havia, contudo, outra tradição, sobre uma Deusa Mãe, que provavelmente foi ignorada ou suprimida durante o Reino Antigo, mas emergiu nos Textos dos Sarcófagos, quando o enfraquecimento do controle central permitiu que cultos provinciais aparecessem nos textos.” (Página 87)
A página 226 combina os temas da serpente, do terceiro olho e da deusa-mãe: ↩︎
Essas alavancas são usadas com grande eficácia. Por exemplo, tente fazer o Gemini, do Google, criar uma imagem de uma pessoa branca. ↩︎
Julian Jaynes (célebre por sua mente “bicameral”) e Ian McGilchrist mencionam ambos a lateralização cerebral em relação à consciência. Há grandes diferenças sexuais: ↩︎
De acordo com o resumo do gene no UniProtKB, TENM1: “Desempenha um papel na regulação da neuroplasticidade no sistema límbico” e “Induz a inibição da transcrição do BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) nos neurônios”. (O BDNF é semelhante ao fator de crescimento nervoso encontrado no veneno de serpentes.) ↩︎
Anxious Pleasures: The Sexual Lives of an Amazonian People (1973) ↩︎
Ritos e símbolos de iniciação: os mistérios do nascimento e do renascimento (1958) ↩︎
Embora se possa perguntar: “O que aconteceu às bruxas da Europa na Europa?” ↩︎
As duas páginas que precedem esta detalham mais o assunto. Para dar uma ideia da quantidade de documentação existente sobre o zunidor, coloquei em negrito as diferentes tribos abaixo. ↩︎
Na verdade, Lowie foi importante no desenvolvimento do relativismo cultural hoje predominante na antropologia. Na prática, isso tende a minimizar a importância da difusão. Os relativistas culturais enfatizam a especificidade cultural (por exemplo, o zunidor tem um significado diferente na Grécia e na Austrália), a invenção independente e um ceticismo geral em relação a teorias abrangentes (exceto, sabe como é, o relativismo cultural). Portanto, seu apoio à difusão neste caso não é uma questão de conveniência ideológica. ↩︎
Gostaria de voltar ao tema com atenção voltada para a Austrália. A expansão da família linguística Pama-Nyungan parece-se muito com a disseminação do Culto da Serpente. Considere este resumo de um artigo escrito por uma equipe de linguistas e geneticistas: ↩︎
Por exemplo, o sacrifício de Odin para aprender as runas: ↩︎
- ↩︎
Um exemplo recente de um biólogo evolucionista respondendo à pergunta sobre quando nos tornamos humanos:
↩︎“As pessoas tendem a presumir que há algo que nos torna fundamentalmente diferentes dos outros animais. A maioria das pessoas, por exemplo, tenderia a pensar que não há problema em vender, cozinhar ou comer uma vaca, mas não em fazer o mesmo com o açougueiro. Isso seria, bem, desumano. Como sociedade, toleramos exibir chimpanzés e gorilas em jaulas, mas ficaríamos desconfortáveis em fazer isso uns com os outros. Da mesma forma, podemos ir a uma loja e comprar um filhote de cachorro ou um gatinho, mas não um bebê.
As regras são diferentes para nós e para eles. Até mesmo ativistas ferrenhos dos direitos dos animais defendem direitos animais para os animais, não direitos humanos. Ninguém está propondo conceder aos símios o direito de votar ou de ocupar um cargo público. Inerentemente, vemos a nós mesmos como ocupantes de um plano moral e espiritual diferente. Podemos enterrar nosso animal de estimação morto, mas não esperaríamos que o fantasma do cão nos assombrasse, ou encontrar o gato à nossa espera no céu.
E, no entanto, é difícil encontrar evidências para esse tipo de diferença fundamental.”
Ele pergunta por que o comportamento sapiente não se manifestou amplamente antes de 10-15 kya. Eu nunca tinha ouvido falar do Paradoxo Sapiente antes de pesquisá-lo para EToC. Depois de ter a ideia para EToC, meu primeiro pensamento foi que o Gênesis não poderia ser verdadeiro, porque devemos ter nos comportado de maneira humana por muito mais tempo do que um mito poderia durar. Foi um choque descobrir que pelo menos alguns arqueólogos sustentam que a sapiência é recente e que esse é um mistério não resolvido. Da mesma forma, eu não achava que haveria qualquer evidência de que o veneno de serpente fosse usado como enteógeno e, de fato, escrevi os textos sobre o Culto da Serpente e EToC v2 sem qualquer evidência. Acontece que ele provavelmente era usado em Elêusis, é atualmente usado na Índia e pode ter sido usado nas Américas. Do mesmo modo, eu nunca tinha ouvido falar do Colapso Bicameral. Pelo menos da minha perspectiva em primeira pessoa, EToC tem um excelente histórico no que diz respeito às previsões que faz. ↩︎