Resumo

  • Newton lê o mito pagão como história comprimida: “homens divinizados por novos nomes”, produzindo muitos deuses a partir de poucos grandes governantes Newton, Draft sections of the Chronology. [^oai1]
  • Ele argumenta que Osíris = Baco = Sesóstris, portanto um único rei egípcio histórico: Sesac (o bíblico Sisaque) Newton, Of the Empire of Egypt. 1
  • Os ritos báquicos e os ritos osiríacos “concordam em tudo”, de modo que os paralelos cultuais provam a identidade Newton, Drafts on chronology: 2b. 2
  • Ele ancora a cronologia em torno de Roboão/Asa e da invasão de Sisaque, comprimindo a cronologia mítica grega em um enquadramento bíblico Newton, Drafts on chronology: 2b. [^oai1]
  • Autores clássicos já vinculavam Osíris ↔ Dioniso (Heródoto 2.42; Plutarco, Ísis e Osíris), a mesma ponte utilizada por Newton (Diodoro I.14; IV.2–6). 3

“Pois era usual, naqueles dias, divinizar homens com novos nomes.”
— Isaac Newton, Draft sections of the Chronology (c. século XVIII) [^oai1]


A tese de Newton em uma linha#

Newton comprime o panteão clássico em uma lista de reis do Oriente Próximo. Os deuses pagãos são mortais famosos cujos feitos foram ritualmente rememorados e alegorizados; nomes divergentes multiplicam um único original. Em suas palavras, “vários nomes foram dados ao mesmo Deus… [e] os nomes finalmente se transformaram em tantos Deuses”. 4

A partir desse axioma, ele força a questão de Dioniso/Baco: “Osíris, Baco e Sesóstris… os três devem ser um só e o mesmo Rei do Egito; e esse Rei não pode ser outro senão Sesac”. 1

As fontes clássicas já sugerem essa identidade: Heródoto afirma que os egípcios “dizem que [Ísis e Osíris] são Dioniso” (2.42), e Plutarco considera “melhor identificar Osíris com Dioniso”. Newton simplesmente sistematiza essa tendência e a insere em uma cronologia rigorosa (Heródoto 2.42; Plutarco, Ísis e Osíris §§35–36). 3

Como ele chega a isso (Newton, não nós)#

  1. Mesma época, mesmas conquistas, mesmos troféus. Diz-se que Osíris, Baco e Sesóstris conquistaram até a Índia, atravessaram o Helesponto, tomaram a Trácia, erigiram pilares inscritos e retornaram a Tebas — portanto, um só rei (seu lema decisivo). 1
  2. Os mesmos ritos.As cerimônias e os ritos de Osíris concordam em tudo com os de Baco”, e “Baco é geralmente considerado um só e o mesmo Deus que Osíris”. (Newton citando Diodoro e outros.) 2
  3. O mesmo padrão de divinização.Sesac foi divinizadopelos nomes de Osíris, Baco e Dioniso” em diferentes países; governantes e suas consortes tornam-se deuses com múltiplos títulos locais. [^oai1]
  4. A mesma onomástica no interior do Egito. Na tradição egípcia, diz-se que Baco é filho de Ísis… chamado Arsaphes — um rótulo egípcio que sustenta a sobreposição grega. 5

O que “Baco” significa para Newton#

Não principalmente o filho ático de Semele; Newton distingue vários “Bacos”. O Baco conquistador da Índia e da Trácia é o egípcio Osíris/Sesac, não uma variante mítica posterior — novamente, o teste são feitos + ritos + tempo (compare Diodoro IV.2–6 quanto ao Dioniso conquistador). 6


Os ritos como prova: báquico ≡ osiríaco#

O movimento mais elegante de Newton é a equivalência ritual. Ele se apoia em Diodoro e Plutarco para argumentar que aquilo que os gregos celebravam como orgia báquica eram ritos funerário-agrícolas egípcios em homenagem a Osíris, reexportados para o Ocidente por sacerdotes como Orfeu/Eumolpo.7 Daí sua conclusão condensada: “as cerimônias e os ritos de Osíris concordam em tudo com os de Baco”. 2

Para mostrar a forma de seu argumento, eis uma concordância minimalista (motivos rituais glosados com as fontes de Newton):

MotivoPrática osiríacaContraparte báquicaLocalização clássica (autoridades de Newton)
Procissões e lamentosProcissões noturnas, luto por OsírisOrgia noturna, ιωλές e lamentosDiodoro I.14–15; Plutarco, Ísis e Osíris §69. 6
Instrumentos sagradosSistros, emblemas da colheitaTirso, hera, emblemas da vindimaPlutarco §§35–36 (símbolos egípcios ↔ dionisíacos). 8
Ato míticoEsquartejamento e recomposição de Osíris → ciclo agrícolaDioniso que morre e ressuscita → ciclo da vindimaPlutarco, passim; Diodoro I.11–13. 8
Transmissores sacerdotaisHierofantes egípciosOrfeu/Eumolpo levam os ritos à GréciaNewton citando Diodoro/tradição grega. 2

Newton não precisa de uma alegoria barroca; ele simplesmente compara culto com culto e deixa que a concordância sustente o argumento. “Baco é geralmente considerado um só e o mesmo Deus que Osíris.” 2


Dos nomes às nações: euemerismo com força#

A hermenêutica de Newton começa na linguagem e se estende à organização política:

  • Multiplicação por epítetos.Vários nomes foram dados ao mesmo Deus… [e] os nomes finalmente se transformaram em tantos Deuses”, um mecanismo filológico para a formação dos panteões. 4
  • Hieróglifo → deus. Heróis representados em emblemas hieroglíficos (chifres de carneiro, boi, uvas, caduceu) convertem-se em cultos de forma animal quando as imagens passam a ser tomadas literalmente — um hábito egípcio exportado para o exterior. [^oai1]
  • Divinização na diáspora. Reis e rainhas recebem novos nomes em novas terras — “Sesac foi divinizado… pelos nomes de Osíris, Baco e Dioniso” —, de modo que a geografia mítica é a imagem residual da conquista. [^oai1]

Ele preserva até mesmo rótulos internos egípcios — por exemplo, Baco como Arsaphes, “forte e valente” — para mostrar que o deus grego se assenta sobre um dossiê egípcio, e não o contrário. 5


A engrenagem: por que isso equivale a Sesac / Sisaque / Sesóstris#

Newton funde a identidade à cronologia bíblica:

  1. Evento-âncora. O saque realizado por Sisaque (Sesac) durante o reinado de Roboão fornece um marco absoluto (1Rs 14; 2Cr 12). Newton data repetidamente conquistas e guerras civis em relação ao reinado de Asa. [^oai1]
  2. Equivalência nominal. Em seus rascunhos, ele escreve “Sesóstris (ou Sesak)”, assinalando a forma grega e a forma bíblica como referências ao mesmo soberano. 2
  3. Sincronismos. De Sesac aos Argonautas e à Guerra de Troia, ele comprime as gerações míticas gregas para fazê-las caber no horizonte pós-salomônico — um programa explícito em Chronology of Ancient Kingdoms Amended. 1

Vale ouvir a conclusão decisiva do próprio Newton: “os três devem ser um só e o mesmo Rei do Egito; e esse Rei não pode ser outro senão Sesac”. 1


Tabela: mapa das identidades de Newton (nomes, papéis, provas)#

Alvo de NewtonRótulo(s) egípcio(s)Rótulo(s) grego(s)/romano(s)Pessoa histórica segundo NewtonTipo de prova que ele citaLocalização em Newton
Rei conquistador de TebasOsíris; ritos com Ísis; Arsaphes (epíteto)Baco / DionisoSesac (= Sesóstris/Sisaque)Mesma época, conquistas, pilares; mesmos ritosEmpire of Egypt; Drafts 2b; Notes (TRAN00013). 1
Rainha/consorteÍsisFrequentemente associada a Dioniso/BacoRainha de SesacRitos paralelos Ísis↔Deméter; difusão do cultoDrafts 2b + Plutarco; Heródoto 2.42. 2 8
General / homem forteHércules (general egípcio)HéraclesCapitão sob o comando de SesacCampanhas egípcias na Líbia; pilaresDraft sections of Chronology (a[7]). [^oai1]

Perguntas frequentes#

P1. Newton disse literalmente que Baco e Osíris são o mesmo?
R. Sim: “Baco é geralmente considerado um só e o mesmo Deus que Osíris”; em seguida, ele argumenta que os ritos “concordam em tudo”. 2

P2. A qual Baco ele se referia?
R. Ao Baco conquistador (Índia/Trácia), não ao filho ático de Semele; Newton distingue os tipos e vincula este Baco ao Osíris/Sesac egípcio por meio dos feitos e do culto. 6 1

P3. Por que Sesac em vez de “Sesóstris”?
R. Porque Newton alinha o relato grego (Sesóstris) ao Sisaque bíblico (Sesac) para fixar as datas — todo o seu projeto consiste em sincronizar-se com a cronologia hebraica. [^oai1]

P4. Newton inventou o vínculo Osíris↔Dioniso?
R. Não — Heródoto (2.42) e Plutarco já fazem essa identificação. Newton a mobiliza para construir um único rei histórico subjacente aos mitos. 3


Notas de rodapé#


Fontes#


  1. Newtonproject ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  2. Newtonproject ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  3. Penelope (U. Chicago) ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  4. Newtonproject ↩︎ ↩︎ ↩︎

  5. Newtonproject ↩︎ ↩︎ ↩︎

  6. Penelope (U. Chicago) ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  7. Newton nomeia Orfeu/Eumolpo como vetores de transmissão do ritual egípcio para a Grécia, ao mesmo tempo que cita a descrição de Diodoro das cerimônias osiríacas — seu movimento central é o isomorfismo ritual, não a alegoria. 2 6 ↩︎

  8. Penelope (U. Chicago) ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  9. Loebclassics ↩︎